Desde que me aposentei passei a ter várias atividades, a contragosto,
todas domésticas e chatíssimas. Não podem me ver (parado, na concepção deles)
assistindo televisão, ouvindo música, lendo meus livros, que alguém, mulher ou um dos
filhos, logo me arranjam o que fazer.
- Já que cê tá fazendo nada, que tal um pãozinho quente
que sai agora à tarde na padaria?
- Já que cê tá fazendo nada, dá um pulinho ali no
supermercado pra comprar um tempero pra moqueca do almoço.
- Já que cê tá fazendo nada, paga essa conta pra mim,
ou... e...
Repetindo a piada sem graça e já gasta, o jargão "já que"
me fez ficar conhecido como Jacques aqui em casa. São uns sacanas, agora só me chamam de
Jacques, certamente pra me gozar e me irritar.
Para colocar um basta nesta falta de respeito tive que arranjar uma
atividade fora de casa, para passar o meu tempo e sair dessa de Jacques pra cá, Jacques
pra lá. Ora, vão catar coquinhos!
Inscrevi-me numa ONG como voluntário na luta de combate ao câncer.
Fui aceito. Sem vencimentos, trabalho de doação mesmo. Atividade edificante e
beneficente. Atitude digna dos maiores encômios, de alto valor altruístico. Quero ver
agora me usarem como Jacques. Comecei a trabalhar imediatamente.
Sou instrutor e assistente para diagnóstico precoce do câncer de
mama. A incidência desta insidiosa doença se dá mais na maturidade da mulher, porém o
diagnóstico precoce deve ser feito até os 35 anos, em mulheres com vida sexual ativa.
Estou dominando o assunto! Recebo mais de dez pacientes por dia, entre 15 e 35 anos. Faço
uma criteriosa e cuidadosa análise das mamas, apalpando carinhosamente aqueles seios, sem
pressa, para comprovar a existência de alguma anormalidade naqueles protuberantes
atributos femininos. São seios fartos, tenros, pequenos, mimosos, flácidos,
intumescidos, rosados, morenos, pretos, mamilos vermelhos, pontudos ou não, uma variedade
impar desses domos anatômicos em par e sem par.
É um trabalho duro e estafante! Além disso, ainda ministro aulas
práticas, a uma sempre seleta audiência de jovens enfermeiras, sobre como o exame deve
ser feito, com elas manuseando as suas próprias mamas sob minha orientação direta.
Já estava há pouco mais de um mês nesta atividade, achando-a
excelente e muito gratificante dado o alto conteúdo social de que lhe é inerente.
Contudo, como tudo, fui começando a me cansar, dada a masmice, digo, a mesmice dos
exercícios e já me apresentava com olheiras profundas e um certo tremor nas mãos, que
não podiam parar quietas, nervosas para apalpar algo. O uso do cachimbo... Como máxima,
nesse contexto, é infeliz, reconheço.
Numa noite fui chamado às pressas ao centro de diagnóstico precoce
para atender a uma paciente. Ao começar o meu trabalho de apalpadelas, a senhora, jovem
um tanto volumosa, relaxou na cadeira e foi cerrando os olhinhos profundos numa pose
lânguida que, de início, me pareceu normal. À medida que o exame prosseguia sentia a
respiração da mulher tornar-me mais intensa. Foi quando, num impulso, abriu os olhos e
agarrou-me num abraço forte afogando-me entre os seus seios "fellinianos".
Aquelas imensas tetas ensanduichavam o meu rosto no vale dos seus peitos imensos e seus
braços enlaçavam-me numa sofreguidão inimaginável. Minhas bochechas comprimidas
vedavam meu nariz e a minha boca que, nesta altura, parecia uma boca de peixe, vertical,
tentando se abrir para inspirar um pouco de ar. Agoniado, consegui respirar e dei um grito
agudo e sufocado de socorro.
Acudiu-me minha mulher que dormia ao lado pedindo-me calma,
informando-me que se tratava de um sonho. Sonho senil de uma noite de verão. Já eram
seis horas da manhã. Aproveitei e levantei-me de vez. Não conseguiria mais dormir. Mudei
a roupa e parti imediatamente para a padaria para comprar o leite e o pão nossos de cada
dia. Já fazia planos para depois passar pelo supermercado e voltar àquela rotina de
Jacques, que não tem nada que fazer mesmo e por isso fica por aí pensando besteira a
ponto de se excitar e provocar este tipo de pesadelo.
E o que é pior, dar margem a alguém escrever contos oníricos de
mau-gosto, politicamente incorretos e de cunho eminentemente machista-leninista.
Genserico Encarnação Júnior
Itapoã, Vila Velha (ES), 24 de abril de 2002.