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JORNALEGO ANO IV - Nº 109, em 10 de Setembro de 2005. Conto QUEM TEM MEDO DE MRS. DALLOWAY?
Clarissa “disse que ela própria iria comprar as flores”. Ricardo, impávido, ao computador, grunhiu em sinal de captação da mensagem, tentando não prejudicar a sua fraca concentração na elaboração de um conto. Mesmo assim, sem dar grandes atenções à intervenção da mulher, perdeu o fio da meada do que estava escrevendo. Voltou a recuperá-lo quando ela, efetivamente, saiu de casa, meia hora depois de ter ameaçado fazê-lo. Isso aconteceu às onze e meia de certa manhã de primavera, quando ela finalmente se desvencilhou de suas obrigações matinais. Era uma verdadeira operação de guerra: o levantar-se da cama, o desjejum, o banho escaldante e demorado (o disjuntor do chuveiro elétrico por vezes desligava e ela gritava para que o religasse), a secagem dos cabelos, a maquiagem (embora discreta), a escolha da roupa (era comum trocá-la várias vezes até achar a ideal), o telefonema infindável para a filha, algumas orientações para a empregada e... pronto, lá se fora a manhã! Clarissa convidara as amigas mais chegadas para um encontro ao cair da tarde, para comemorar seus cinqüenta e nove anos. Pro ano que vem iria dar uma festança. – “Aguardem!” Desta feita, chá, acepipes, bolos e conversa, muita conversa. Marta, sua filha, estava com problemas com os homens da casa. Tinha discutido com Jorge, seu marido, que saíra cedo, tresnoitado, sem comer nada, para dar aula na Universidade. Seu filhinho não os deixara dormir na noite que passou, chorando com cólicas, e carente de atenção, principalmente quando notou a impaciência dos pais. Aquelas discussões eram freqüentes, mesmo antes do nascimento do nenê. Clarissa saiu informando à empregada e ao marido desses problemas, de suas preocupações com o neto e com o casamento da filha que, a seu ver, não cuidava muito bem do marido. Além disso, Marta era meio zen, não ligava muito para suas roupas, seu aspecto. – “Com tanta garota bonitinha por aí infernizando a vida dos bons partidos.” “Principalmente agora, depois do parto, quando ainda não tinha voltado ao seu corpo de donzela e pouco fizera para que isso acontecesse.” “Imagina quando voltasse a trabalhar”! Hoje não poderia dar assistência à filha, tinha muitos afazeres. Vamos ver se ela aparece por aqui para comer um pedacinho de bolo com aquela fofura de bebê, de quem já estava morrendo de saudades desde a última vez que o vira. Ontem à noite. Foi ao cabeleireiro, fez as unhas, os pés, depilou as pernas, cortou os cabelos, penteou-os e informou às manicuras e às circunstantes da sua nova idade (não a escondia). – “Mas não ia fazer nada”. “A vida estava pela hora da morte e não para festas e gastos supérfluos, principalmente agora, que tinha voltado de uma viagem ao Sul do país, para curtir o friozinho na serra gaúcha, esticando-a até Buenos Aires”. Fez um relato minucioso dos acontecimentos da excursão, elogiou a beleza e o desenvolvimento daquela região e, por fim, criticou os argentinos, principalmente porque falavam tão rapidamente, num dialeto que não tinha nada a ver com o que aprendera em suas aulas de espanhol. – “Esses argentinos detonaram um idioma tão bonito e sonoro!” – “Pois é!” “Lá e cá más fadas há.” “A miséria e a violência campeiam em Buenos Aires, como em nossas grandes cidades.” “Acredito mesmo que seja um fenômeno mundial.” “Miséria, violência e terrorismo, parentes entre si.” “Talvez seja falta de princípios morais, desestruturação da família e ausência de educação religiosa.” “Só saíamos à noite em grupos, de microônibus.” “Era assistir a um show, comer uma carne (que supimpa!), tomar um bom vinho, e voltar para o hotel.” “Tudo baratinho, baratinho.” Passara pelo caixa automático do banco, apanhara algum dinheiro, colocou gasolina no carro e telefonou para casa. – “Benhê, estou chegando, você já almoçou?” – “Querida, já são duas e meia, já comi, já vi o noticiário da tarde e você acaba de me acordar de uma deliciosa sesta.” O marido estava aposentado, virara contista artesanal para ocupar o seu tempo ocioso. Sempre fora meio devagar, agora estava quase parando. Não movia uma palha dentro de casa. Só vivia para ler e escrever. Todas as necessidades, tudo dependia dela. Até na direção do carro era um pamonha. “Olha o sinal (passou com a luz vermelha!), vá pela direita, olha a moto, tá correndo muito, passa a tranca...” “Isso me cansa!” Retornou a casa, engoliu o resto do almoço e voltou a sair. Teria de voltar no final da tarde para receber os salgadinhos, a torta diet e providenciar o chá, arrumar a mesa, a decoração das flores etc., para o que a empregada já estava devidamente instruída. – “Mas, você sabe, sem a nossa presença e orientação, essas moças não sabem fazer nada, não têm traquejo, não sabem arrumar uma mesa!” Comprou as flores. Rosas vermelhas, frescas, vistosas, suas preferidas. Nessa transação, passou quase uma hora trocando opiniões com a florista, sua conhecida, sobre a crise política que o país está vivendo. – “Veja só.” “Eu que nunca tinha votado no PT, caí na besteira de votar no Lula na última eleição.” “Tudo por causa do meu marido que me induziu a isso.” “Ele sempre foi simpatizante do Lula.” “O segundo grande erro eleitoral que ele cometeu.” “O primeiro, contou-me, foi ter votado no Jânio Quadros.” “Nessas eleições eu não votei, ainda era uma menininha.” “O meu primeiro voto para presidente foi para Covas; depois, no segundo turno...” “Ah!” “Esquece!” “Me esqueci em quem votei!” “Estou começando a esclerosar!” Recebeu os cumprimentos pelo aniversário e ao sair lembrou-se em quem votou. Esquece! Dirigiu-se à confeitaria para comprar pães sofisticados e pastinhas de salmão, de ervas finas, tomates secos e que tais. Encontrou uma ex-colega, a quem não encontrava havia muito, com quem tomou um cafezinho. Conversaram durante outra boa hora, falando de filhos, recordando os bons tempos de colégio, os namoricos... Foi quando lhe perguntaram por Pedro. Se, por acaso, o havia encontrado desde quando concluíram o científico. – “Não.” “Nunca mais.” – “Pois bem, estive com ele esta semana, no shopping.” “Perguntou por você e quis saber onde você morava.” “Dei o serviço.” “Fiz mal?” Despediu-se e ficou a lembrar-se do Pedro. Das conversas infindáveis que mantinha com ele. Não faltavam assuntos. Dos bailes no Instituto Brasil-Estados Unidos, onde também eram colegas num curso de inglês. Das sessões vespertinas do Cine São Luiz. Dos livros que trocaram. Daquele fiel companheiro de adolescência. Dos deveres de casa compartilhados. Doce adolescência! Não chegou a namorá-lo, a timidez do Pedro era maior do que a vontade. Depois que ele se mudou para o Rio, com os pais, nunca mais o encontrara. Não se recordava de como dirigiu o carro e por onde passou até chegar a casa. Recordava, sim, um passado mais longínquo. E coisas que ficou sabendo por interpostas pessoas (!). Pedro se formou em direito e foi admitido no Instituto Rio Branco, onde completou brilhantemente o curso. Seguiu a carreira diplomática, inicialmente por alguns países da América Latina, depois África e finalmente no circuito Elizabeth Arden (Londres, Paris e Nova Iorque). Agora era Ministro de Primeira Classe (embaixador sem nunca ter tido uma embaixada) trabalhando no Itamaraty em Brasília. Chegando a casa ainda teve tempo de contar ao marido quase tudo o que se passara no dia, fazendo-se atrasar nos preparativos para receber suas primeiras amigas, que já batiam à porta. Enquanto ela se preparava Ricardo se via obrigado a bancar o anfitrião. Recolheu-se ao escritório tão logo Clarissa – perfumada, radiante e poderosa – adentrou-se nos seus salões iluminados, já parcialmente lotados. Ainda recordando: foi num daqueles bailes no IBEU que conheceu Ricardo, seis anos mais velho do que ela. Estudante de engenharia às vésperas de graduar-se. Racional, pacato, simpático, atencioso, transmitindo-lhe toda a confiança de um homem bem estruturado, com futuro garantido, ótimo partido. Pedro dançava, no sentido lato! Um namoro rápido, noivado, como os costumes então exigiam, e vejam no que deu: trinta e cinco anos de casados! O interfone tocou e foi atendido pelo Ricardo. Informaram-lhe que o Sr. Pedro estava subindo para visitar D. Clarisse. Ricardo o recebeu e o encaminhou ao seu escritório. Rolava na sala e na varanda a comemoração do aniversário, aquele vozerio feminino, aquela algaravia festiva. Quebrada pela notícia de um acontecimento trágico. O filho da vizinha de uma das amigas, proibido de sair de casa para um dos preocupantes embalos noturnos (a mãe fechara todas as portas do apartamento) saiu pela varanda do seu belo prédio à beira-mar, na Praia de Camburi. Jogou-se do décimo andar. Houve consternação momentânea, comentários alusivos ao acontecimento, o astral baixou, mas logo depois já havia voltado ao seu nível anterior. Depois de saudar efusivamente ao inusitado visitante, Ricardo sugeriu ao Pedro, a quem conhecia daqueles velhos tempos, que ficassem conversando por ali até que a agitação acalmasse. – “Clarissa vai ficar felicíssima de encontrá-lo, depois de tanto tempo.” Conversaram sobre a vida. Ricardo ficou sabendo do casamento do Pedro, de seus dois filhos, do divórcio e da perspectiva de um novo casamento, depois de alguns anos de solteiro. A noiva era uma colega diplomata igualmente partindo para um segundo casamento, também com dois filhos. Quando cessou o zoado na casa, Ricardo foi até a varanda averiguar a situação. Então avisou a Clarissa da presença do Pedro no escritório. Ele conferia as lombadas dos livros nas estantes do recinto. A maioria deles tratava de engenharia, cálculos, estruturas etc. Mais adiante havia uma outra estante com os livros de sua preferência. Ricardo tornara-se aficionado da literatura assim que os anos avançavam e dispunha de mais tempo. Enquanto conferia os títulos dos livros e esperava, Pedro “deixou-se ficar sentado, um momento.” “Mas que terror é este?” “Pensou consigo.” “Que êxtase me vem?” “Que é que me enche de tão extraordinária excitação?” “É Clarissa, descobriu.” “Pois ela ali estava.” Tomei emprestadas a primeira frase e as últimas palavras do romance da Virginia Woolf para abrir e fechar este conto. No seu miolo encaixei o relato que me fez ontem a minha querida Clarissa, tão logo ela voltou para casa, com aquele lindo buquê de rosas. Mais o que testemunhei. Dei uns ligeiros toques e inventei pouca coisa. Acredito que possa existir algo em comum entre o conto e o livro, entre um dia na vida de Clarissa e um na de Mrs. Dalloway. Sem pretensão a nenhuma comparação literária, naturalmente. FIM
Referências: MRS. DALLOWAY (1925), romance de Virginia Woolf, tradução de Mário Quintana. QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF (1962), drama teatral de Edward Albee. AS HORAS (2002), filme dirigido por Stephen Daldry, com Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman. Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES)
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