JORNALEGO
ANO IV
- Nº 108, em 30 de Agosto de 2005.
Crônica
O
EQUILIBRISTA NA CORDA BAMBA
Uma
noite sem luar, de céu limpo e estrelado, na periferia urbana de uma cidade amazônica.
Logo depois do escurecer divisei com facilidade a constelação do Cruzeiro do Sul no firmamento.
Passado um tempo voltei ao escuro do fundo da chácara e observei que as estrelas que a compunham
estavam em outra posição, bem diferente da anterior. Mais um tempo depois e a mudança se acentuara.
Fiz outras constatações ao longo da noite. No início da madrugada o Cruzeiro se afundava no
horizonte por sobre a copa das árvores vizinhas.
A
sensação provocada pela referência com o céu estrelado foi de estar surfando preso à superfície do
planeta, qual um Pequeno Príncipe, à deriva pelo espaço cósmico. O movimento de rotação da Terra
passou a ser fortemente sentido e esta percepção me provocou uma certa tontura.
Um
segundo fenômeno, de igual natureza, foi observado durante alguns dias seguidos. Dormia numa casa de
madeira com um pequeno furo redondo numa das tábuas, no alto do teto rente ao telhado, dando para o
lado leste.
Com o raiar do dia, um facho de luz solar entrava na casa pelo buraquinho, projetando na parede
contrária do quarto uma mancha de luz igualmente redonda. Com a alvorada, despertava. Ainda ficava
deitado, pensando e olhando ao redor. Ao correr das horas aquele reflexo se movia no sentido
vertical de cima para baixo, na linha da porta. Esse movimento mostrava também, claramente, o
movimento de rotação da Terra.
Passados os dias, sempre testemunhando o fenômeno, notei que o facho de luz e o reflexo na parede se
deslocavam para a direita, não mais correndo por cima da junção lateral da porta com o seu batente.
Era o movimento de translação da Terra em torno do Sol.
Logicamente que esses movimentos são também percebidos pela sucessão dos dias e das noites e das
estações do ano em qualquer parte do mundo. Mas as sensações de flutuação provocadas dessa maneira,
de estar flanando perdido pelo espaço, foram mais profundamente sentidas com essas observações do
que com o conhecimento racional do fenômeno.
A paz reinante no local, a ausência da iluminação dos centros urbanos com seus altos edifícios, tudo
permitiu a acuidade da observação e os sentimentos daí decorrentes. Ademais, no apartamento onde
resido, aqui no sudeste, não há buraco no teto!
Ah! A
sensação de estar solto no espaço! Rodando! Flutuando! Rodopiando! Que sensação de
imponderabilidade, insegurança e impotência humana! A idade madura aguça o poder de percepção das
pequenas coisas, conseqüências dos grandes movimentos da natureza. Talvez, a procura de um tema para
atender à necessidade de escrever nos torne mais íntimos dos fenômenos naturais e dos
comportamentos humanos. Fenômenos dessa ordem, sobejamente conhecidos pela razão, através da
instrução, mesmo assim, causam-nos espanto quando sentidos via emoção.
Tudo
era movimento e em grande velocidade. Na Amazônia, nas proximidades do equador, acredito que a
sensação da velocidade do movimento seja maior do que quando se está mais próximo dos pólos. Na
latitude de noventa graus, em cima do pico ou da base do planeta (afinal não há referência para
saber o que está em cima ou em baixo) você rodopiará feito pião. Na linha do equador você dará, num
dia, uma volta gigantesca no espaço sideral (mais de 40 mil quilômetros, o comprimento da linha do
equador) a uma velocidade elevadíssima (40 mil km / 24 h. = 1,6 mil km/h), maior do que a do som,
sem a notar, por força da gravidade.
Nada além do
natural! A mim, já me basta o natural. Ele vem prenhe de encantamentos e mistérios, prescindindo da
colaboração do sobrenatural e do metafísico.
Espero,
neste texto singelo, que o poder de observação desses fenômenos seja acompanhado igualmente pelo
poder de transmissão dos sentimentos, para compartilhá-los com meus leitores.
Tudo é
movimento, passageiro, mutante, efêmero. Nada foi, é e será como dantes, mesmo no quartel de
Abrantes!