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JORNALEGO ANO IV - Nº 107, em 20 de Agosto de 2005. Conto CONTO NO AR Na investida dos Estados Unidos contra o Afeganistão, em represália aos ataques de 11 de Setembro de 2001 a Nova Iorque e Washington e na interminável caçada a Osama Bin Laden, foi preso um estranho personagem numa das centenas de grutas existentes nas montanhas pedregosas daquele país. Com ele coabitavam vários guerrilheiros talibãs. Eis o motivo da prisão. Junto com vários afegãos, foi embarcado para a base área americana de Guantanamo, em Cuba. Tratava-se de um peregrino oriundo das regiões desérticas do sul da Mongólia conhecedor profundo da magia ancestral praticada por seu povo. Estava de passagem por aquele país, em demanda de lugar nenhum, tão-somente à procura de si mesmo ou mesmo de nada. Caminhando e jejuando. Cogitando e orando. Figura excêntrica! Além de não falar as línguas locais, nem o árabe e tampouco nenhum idioma ocidental, só se expressava num desconhecido dialeto de sua região, perdida no centro do continente asiático. Não era dado a falações e mesmo assim não tinha interlocutores. Vivia ensimesmado. Desconhecia o mundo. Não acompanhava os lances da, assim chamada, política internacional. Vinha se alimentando de ervas e insetos (catadas e caçados) das desérticas imensidões afegãs. Após uma vida de completo domínio sobre a matéria conseguia sobreviver com pouquíssimo alimento. No vôo com destino a ilha cubana, fariam uma escala na base americana de Frankfurt; depois do reabastecimento seguiriam para o continente americano. Ao embarcar, vendado e amarrado a outros prisioneiros, entrou num grande avião ao lado de soldados fortemente armados e outros petrechos militares. Recusou-se a ingerir a alimentação fornecida pelas tropas americanas. Rezando em forma de lamúrias entoadas como agonizantes nênias, proferia orações ininteligíveis. Com isso começou a infernizar as primeiras horas do vôo. Mesmo sendo punido com contundentes coronhadas, não deixou de perturbar o ambiente. Nesta primeira etapa do vôo coisas estranhas já começaram a acontecer com a aeronave e os passageiros. Fortes turbulências eram sentidas conquanto os aparelhos meteorológicos não registrassem nenhuma possibilidade de isso ocorrer. Oscilações laterais bruscas e quedas verticais violentas no vácuo, de centenas de metros, aconteciam sem mais nem menos, transtornando a sempre tranqüila viagem no trajeto sobejamente conhecido depois das invasões naquela parte do mundo. Além do cheiro horrível que impregnava o ambiente, os militares eram acometidos de fortes dores de cabeça, no peito, taquicardia, aumento da pressão arterial, diarréia, tudo registrado pelo médico de bordo, quando, por sua vez, esses desconfortos lhe davam alguma trégua. Foi fácil identificar a origem desses infortúnios, pois ocorriam sempre depois que o estranho homem cessava de murmurar uma de suas orações. Aproximadamente uma hora depois de decolarem de Frankfurt, estava morto. De olhos bem abertos revirados para cima, boca escancarada num pavoroso esgar, deixava à mostra a banguela dos dentes cariados, causando espanto, inclusive aos seus companheiros afegãos. Ainda amarrado, soltava gases fétidos e gemidos espantosos, acompanhados de um borbulhar incessante de saliva acompanhado de um hálito insuportável. Um gemido fúnebre fazia-se ouvir no ambiente, sem se saber de onde partia, concorrendo com o som dos propulsores. O silêncio dos viajantes era completo, sepulcral. Um frio mórbido baixou a temperatura ambiente para bem menos do que os termômetros registravam. O plano de vôo estava mantido para a travessia do oceano Atlântico. Contudo as comunicações com aeroportos, bases terrestres e satélites rastreadores estavam totalmente interrompidas. Estirado no chão do compartimento utilizado pelos prisioneiros jazia, vestido com uma túnica rota, o cadáver daquele homem. Exalava um fedor jamais sentido pelos presentes. Os transtornos iniciais da viagem continuaram durante a travessia oceânica. Quando se aproximavam da costa americana, a tentativa de direcionar a aeronave para o Caribe não surtia efeito. Os comandos estavam totalmente alheios às ordens do computador de bordo ou dos atentos e atemorizados pilotos. O avião seguia direto para a costa leste como mostrou o mapa do roteiro na tela esverdeada do monitor. Aproximando-se da terra, já divisada pela tripulação naquele céu de brigadeiro, a grande aeronave estava totalmente desgovernada, ou governada por um poder e artimanhas desconhecidas pela mais avançada tecnologia aeronáutica. O pavor aumentou. O horror tomou conta de todos. Os militares olhavam-se entre si. A tripulação suava naquele frio mórbido. Aquele murmúrio enervante continuava a penetrar nos ouvidos de todos. O mau cheiro empestava as narinas. O avião jogava, balançava e seguia seus caminhos independentes dos comandos de bordo. Não havia nenhuma comunicação. Os radares de terra não captavam nenhum sinal de aproximação, o que impedia quaisquer medidas de defesa antiaérea. Começou-se a notar que ele perdia altura sem desacelerar os jatos. Reinava inquietação. Estavam completamente fora da rota originalmente traçada. Outros poderes muito mais poderosos do que os vãos poderes dos mais poderosos, superiores ao voluntarismo, à política, à economia, às armas, estavam no comando, sob o comando do fantasma que agora gargalhava gargalhadas estentóreas, arrepiantes e anunciadoras de uma grande tragédia. A magia do espírito do peregrino não encontrava resistência alguma. Foi ela que, superando tudo, contaminou o autor destas linhas, levando-o, contra a sua vontade, ao trágico final que se anunciava. Mais dantesco do que isso, levou também o leitor a direcionar o bólido aéreo para o grande impacto final. Assim, o poder da magia foi capaz de influenciar as mentes de simples observadores do cenário contemporâneo deste princípio de milênio, anos tétricos da globalização imperial, para este infausto acontecimento e, pior, para a identificação precisa do local do desastre iminente. Foi exatamente aí, acertando em cheio o alvo imaginado pelo leitor, por influência mágica, que se deu a grande catástrofe. O resto foi uma explosão cinematográfica que mudou o rumo da história, forçando uma reorientação radical na política voluntariosa do império, que se sentiu incapaz de conter a disseminação de forças sobrenaturais de contra-ataque. Dada a impotência das defesas naturais à disposição dos povos oprimidos, só restou – desesperada, idealística e simbolicamente – apelar ao mundo místico-literário para salvar as esperanças do novo século. Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES)
Sugestão de releitura: ACRE TELÚRICO E EMBLEMÁTICO, em: http://www.ecen.com/jornalego/no_82_acre_telurico_e_emblematico.htm
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