Jornalego |
|
|
JORNALEGO ANO IV – Nº 106, em 10 de Agosto de 2005. Relato de viagem DIVAGAÇÕES AMAZÔNICAS (de 17.06.2005 a 07.08.2005) EUCLIDES DA CUNHA E O ACRE Chegando a Rio Branco, caiu-me nas mãos um livro póstumo de Euclides da Cunha - "Um Paraíso Perdido" - , organizado pelo historiador Leandro Tocantins. Contém artigos, missivas, o relatório da Comissão Brasil-Peru sobre a questão de limites entre os dois países e ainda o texto integral de "À Margem da História", todos do autor de "Os Sertões". O escritor havia sido nomeado pelo Barão do Rio Branco comissário brasileiro àquela iniciativa. A Amazônia e a questão de limites no Acre são os temas do referido livro. Euclides da Cunha esteve viajando por essa região - Belém, Manaus e Acre - por aproximadamente um ano, entre 1904 e 1905. Encantou-se com aquela primeira cidade, entusiasmou-se com a floresta e participou de expedição até às cabeceiras do rio Purus. Nesta última houve momentos de puro heroísmo quando desbravou regiões inóspitas e insalubres nunca dantes vistas pelos humanos. Sua missão era a de assessorar a diplomacia dos dois países - Brasil e Peru - no estabelecimento dos limites comuns, em disputa depois de assinado com a Bolívia o Tratado de Petrópolis (1903). Esse Tratado ao estabelecer os limites com a Bolívia, admitia a extensão do Acre e, portanto, do Brasil até as cabeceiras do rio Purus. Assim o nosso território se adentrava no do Peru qual uma cunha (!) até o nascedouro desse rio. Fica aqui uma dúvida: como um Tratado assinado entre a Bolívia e o Brasil poderia definir os limites com o Peru? Com a assinatura do Tratado do Rio de Janeiro (1909) - firmado um mês depois do assassinato de Euclides da Cunha - que definiu nossos limites com este último país, perdeu-se aquele pedaço de terra, aquela cunha se inverteu, penetrando no espaço acreano e brasileiro. Observando o mapa atual, vemos que se trata daquele ângulo que tem como vértice a cidade brasileira de Santa Rosa do Purus. Assim, na realidade, a comissão brasileira comandada por Euclides da Cunha não teve sucesso. Relativamente ao Tratado de Petrópolis, o do Rio de Janeiro admitiu a perda de aproximadamente 40.000 km2 para o Peru. Não se pode dizer, efetivamente, que perdemos aquele território, pois ele estava em discussão sobre a quem pertencia. Nem tampouco debitar o insucesso a Euclides da Cunha e a sua comissão. Talvez se tenha feito justiça, como justiça foi feita com a incorporação do resto do Acre ao Brasil. É de se registrar, tão-somente, o acontecimento histórico. Leandro Tocantins, com excelentes trabalhos históricos sobre o Acre, sugere que a rodovia BR-364, que no traçado projetado liga Rio Branco a Cruzeiro do Sul, ainda não definitivamente concluída por não ter sido superado o problema das cheias dos rios que cruza, leve o nome do escritor. Se bem conheço a psicologia do povo acreano, tenho as minhas dúvidas de que isso venha a se concretizar. Ele é extremamente bairrista e gosta muito de enaltecer suas glórias e vitórias. Acho estranho que ele possa vir a dar o nome de Euclides da Cunha à citada rodovia, pois não houve sucesso na empreitada do escritor fluminense, na disputa de terras com o país vizinho. Outro grande nome da história do Brasil - Rui Barbosa - que participou dos trabalhos iniciais com vistas à efetivação do Tratado de Petrópolis, tendo declinado de sua participação por não ter concordado com o andamento das negociações, não teve seu nome dado a nenhum município ou obra importante no Acre. É nome de uma rua na capital. No entanto quem o substituiu e por fim assinou com o Barão o Tratado aludido - o gaúcho Joaquim Francisco de Assis Brasil - hoje é nome de um município na fronteira com o Peru (Assis Brasil). Euclides da Cunha produziu belas e eruditas peças literárias sobre essa epopéia e a região. Para ele o homem chegou aqui antes de a natureza ter completado o seu trabalho de gênesis. Uma de suas expressões, singular e shakespeariana, sobre essa parte do território brasileiro ficou gravada em minha mente: "Está em ser". Embora não acredite na concretização da indicação do nome de Euclides da Cunha para aquela rodovia, acho que ele merece a lembrança e a homenagem. O ACRE E EU Cheguei com muita antecedência ao Acre para receber o quarto neto. Durante a gravidez de minha filha, algumas contrações precoces fizeram-me acreditar que o parto seria antecipado. Qual o quê! O bebê só veio no prazo devido. Esperei quase um mês pelo nascimento dele. Foi de fato um tempo de ansiedade, mas muito educativo. Tive que controlar a expectativa num exercício muito interessante de testemunho do trabalho da natureza fazendo valer a sua vontade e seu tempo. Nesse período, a contagem regressiva dos dias que me separavam da volta, que sempre esteve presente nas outras quatro vezes que vim ao Acre, não aconteceu. Ficaria por muito mais tempo e vou ficando enquanto for necessária a minha (nossa) presença por aqui. Desta feita não me propus a "fazer" o Acre, como dizem os turistas: visitar outros lugares ainda não conhecidos etc. Com a realização de algumas leituras que me permitiram vagar o pensamento em outras viagens paralelas aos textos lidos, o período foi marcado por reflexões sobre a vida (com a espera e nascimento do novo neto), a minha idade sexagenária e as conseqüências desta relativa longevidade, a história de nosso país (com o acompanhamento da crise cujo epicentro situa-se no PT) e o "assim caminha a humanidade" neste início de século assustador. Não se tratou de uma viagem com preocupações existenciais pessoais. Nada disso. Mas de reflexões íntimas sobre as questões arroladas. Quer saber das conclusões? Pois bem, venha para a região amazônica, isole-se numa chácara, fique grávido de um neto, lide intimamente com o outro neto infante, sofra dores de coluna, deixe-se picar por carapanãs e mucuíns, sinta o forte calor do seco verão amazônico entrecortado por "friagens", empreenda algumas leituras, reflita, medite, observe o céu, as matas, os animais e pronto, você chega lá. Isso tudo sem precisar freqüentar o Santo Daime nem tomar chá de ayahuasca (cipó da alma)! Imagino Euclides da Cunha, com sua grande capacidade de observação e de expressão, por estas bandas, no início do século passado! Genserico Encarnação Júnior Vila Acre, Rio Branco (AC)
Sugestão de releitura: ACRE TELÚRICO E EMBLEMÁTICO, em: http://www.ecen.com/jornalego/no_82_acre_telurico_e_emblematico.htm
|
|
|