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JORNALEGO ANO IV - Nº 104, em 10 de Junho de 2005. Artigo “TRISTES TRÓPICOS”
Refiro-me aos primeiros 66 anos de minha vida, completados no mês passado, e aos correspondentes últimos 66 anos do meu país. Foi no ano de 1939, quando nasci, que o belga Claude Lévi-Strauss passou por Vitória do Espírito Santo, minha cidade natal, no seu retorno à Europa, depois de viver por quatro anos no Brasil e ter estudado algumas comunidades indígenas de Mato Grosso com sua visão antropológica e artística. Quinze ou dezesseis anos depois, lançou o seu livro seminal que intitula este artigo, cujo cinqüentenário está sendo comemorado em 2005. Por esse motivo, revejo o livro artístico Saudades do Brasil, lançado inicialmente em 1994, do referido antropólogo, com excelentes fotografias em preto e branco de sua passagem pelo nosso país. Duas das suas últimas fotos são da baía de Vitória e da pequena cidade rente ao mar, exatamente naquele ano, quando eu abria minha visão estupefata para o mundo. Lévi-Strauss tem hoje 96 anos. Ainda com a mesma característica de visão é que passo a fazer os comentários que se seguem. Durante 27 anos de minha vida passei sob ditaduras. Os seis derradeiros anos do regime Vargas e os dos governos militares. Aquele período inicial também foi vivido sob o estigma de uma guerra mundial. Nos primeiros anos da década de quarenta, Vitória era uma cidade bucólica mas muito chinfrim, pouco mais do que uma vila. Suas ruas calçadas com paralelepípedos só vieram a ser asfaltadas na década de 60. Algumas casas antigas ainda guardavam aquele aspecto sombrio do século XIX ou mesmo de antes. Ruas tortuosas, sobrados, construções baixas e porões rasos. Um único edifício de seis andares destacava-se na praça principal. Em recente visita a Rio Branco, capital do Acre, vi alguns quintais úmidos e escuros, com árvores, galinhas e patos, que me lembraram muito dos quintais de minha infância. Jogávamos bola em terrenos baldios no centro da cidade, nas praças e nas ruas. O trânsito era irrisório. O lado bucólico ficava com as praias despoluídas e os morros cobertos de mata atlântica, os belos bondes em seus trajetos românticos. Éramos felizes como todas as crianças saudáveis e bem-cuidadas de qualquer lugar do mundo. Visto de agora, o Brasil era ingênuo. Tive a confirmação disso revendo um musical com composições populares de então. Éramos um país agrícola, quase baseado na monocultura, em processo de industrialização recente. O Brasil era um país de futuro; disse-o Stephan Zweig, que aqui se refugiou da sanha nazista e aqui se matou com a mulher em 1942. A guerra, em certo sentido, nos foi cinicamente benéfica. Acumulamos preciosos superávits e permitiu-nos dar prosseguimento ao infante processo de industrialização do país, quando foram criadas a Companhia Siderúrgica Nacional e a Cia. Vale do Rio Doce. Mais tarde, surgiu a Petrobras. Em 1960 a inauguração de Brasília simbolizava a conquista de um novo patamar de nação, caracterizado por um acelerado processo de urbanização e a conquista da região central do país. A tentativa de criar um modelo nacional de crescimento, iniciada com a revolução de 1930, desde o seu nascedouro foi solapada por interesses contrários, nacionais e estrangeiros. Com a entronização no poder, mais adiante, por força de contingências particulares, de um governo de idéias esquerdistas (Jango), num cenário de guerra fria, as intenções e realizações nacionalistas e socialistas foram minadas, estocadas pelo golpe militar. O trauma não foi maior porque os militares são nacionalistas de carteirinha. O crescimento econômico não teve solução de continuidade, porém foi alto o preço pago em vidas, prisões, torturas, exílios, falência do processo democrático e custos sociais. Findo o período dos militares, aqui começa o principal foco desta análise. Até então só um canhestro governo do tipo esquerdista tinha assomado ao poder, tendo sido defenestrado pelas armas. Tudo de bom e, principalmente, de ruim deste país foi fruto do comando das classes dominantes. O povo nem sequer tinha sonhado com o poder. Getúlio Vargas dera-lhe algumas esperanças, logo estancadas. A oposição gerada no bojo dos governos militares tinha seus representantes nos novos partidos então criados. Todos eles tiveram posteriormente sua oportunidade de ocupar o poder central. Contudo todos, sem exceção, praticaram políticas continuistas, sem a expectativa de uma sã mudança de rumo. Não se pode mais creditar (ou debitar) às forças políticas de direita os insucessos deste país. As oposições tiveram suas oportunidades. Agora, estamos próximos de fechar este ciclo que pode se prolongar até 2010. O que virá depois? No plano das personalidades, as duas maiores lideranças políticas de oposição do país tiveram as suas chances. Refiro-me a expressão intelectual de um FHC e a expressão trabalhadora de Lula. Aquele privatizou o país com a sua equivocada visão neoliberal, em conluio com partidos de direita. Privatizou 50% do patrimônio público do país e, não obstante, aumentou em 20 vezes a nossa dívida pública. O atual governo, ainda não completado o seu tempo, frustrou a esquerda das mudanças que se esperavam. Para alcançar o poder também se associou a representantes da direita. FHC criou o estatuto da reeleição que custou caro à sociedade, e Lula por certo vai pagar o mesmo preço. A reeleição, por força desses expedientes é maléfica ao país. Provou-se a inviabilidade do voluntarismo, do “dom sebastianismo”, frustrou-se a esperança da vinda de um messias, um nome carismático que nos levasse à Felicidade Geral da Nação. A propósito, é a esse conceito que estamos nos referindo, usando a expressão do Pedro I, quando do episódio do Fico. Não o dos indicadores macroeconômicos, especialmente o insensível PIB. A tarefa é muito mais do que acertar finanças, aumentar juros e apresentar superávits seja lá onde for, em nome de um rígido controle inflacionário. O requerimento principal é o crescimento econômico, é lógico, mas com o desenvolvimento social da população e a preservação do nosso patrimônio cultural e ambiental. Clichês? Falta-nos esse projeto de país que o PT até agora não nos ofereceu e acredito que não tem estofo para tal. Observo recentemente que o PT não tem sequer memória anterior deste país. Sua memória tem início somente na década de 70, do tempo das pugnas trabalhistas contra a ditadura militar. Vou mais longe, nenhum dos nossos partidos tem a grandeza de ter e querer executar esse projeto. O individualismo dos políticos se sobrepõe aos programas partidários. Isso nos leva a uma constatação terrível, assustadora, audaciosa (espero que não seja leviana): somos um país à deriva. É verdade que o mundo está à deriva também. A serviço do capital, com a classe trabalhadora fragilizada. Ao sabor do marketing e de mentalidades imbecis no comando do hegemônico império. Novos arranjos nacionais e internacionais estão para ser paridos. Citando Gramsci: “o velho morreu, e o novo ainda não nasceu”. Lá e cá, como todos sabem, más fadas há. Nesse período analisado, o Brasil cresceu muito, mudou muito, mas não na direção satisfatória. A distribuição de renda piorou, a educação caiu muito, a saúde pública também, a violência campeia, a autonomia nacional não se consolidou, e o patrimônio ambiental se deteriorou. Nesses 66 anos a população total quase que quintuplicou, e a urbana muito mais do que isso. A tarefa é muito difícil, muito dificultada pelo desastre do governo anterior e o panorama internacional. Tristes trópicos! Lego aos meus pósteros uma enorme frustração. Não satisfeito com as minhas conquistas pessoais, frutos sabidamente decorrentes dos privilégios que obtive como integrante da parte beneficiada de minha geração. Aproveitei bem a minha quota! Lego também a esperança de se rejubilarem pelos próximos 66 anos, durante os quais as benesses que obtive e o prazer de viver tão bem por aqui possam ser compartilhados pela grande maioria da população. Mui grandiloqüente final, incompatível com tão tristes tópicos!
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES) Todos os números anteriores podem ser encontrados em:
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