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JORNALEGO ANO IV - Nº 103, em 30 de Maio de 2005. Conto infantil para adultos SUPER-HERÓIS
Meus netinhos! Vou contar pra vocês uma história inventada. Lembro-me que numa dessas oportunidades, na hora de ir para cama, um de vocês me disse: – “Vovô, conte uma história inventada! Não gosto de histórias que aconteceram”. Pois bem, esta é uma história inventada, a de João Sebastião. Um nome que também surgiu de minha imaginação para figurar neste conto. Sei lá por quê! É uma tradução de Johann Sebastian, um grande músico, mais conhecido pelo nome de família, Bach. Mas a história nada tem a ver com ele. Além de gostar da sua música, gosto também do nome traduzido para nossa língua. Hoje em dia estaria fora de moda um nome assim, duplo e sonoro, tão grandão, com um montão de ãos. Mas aqui neste pedaço, já que é fruto de minha criatividade, não se trata de uma figura de carne e osso: é um personagem, vai se chamar mesmo João Sebastião. Como ele vai ser o único personagem, daqui pra frente vou chamá-lo de JS, para não ficar repetindo o nome inteiro. Talvez, quem sabe, vocês estejam imaginando-o vestido numa roupa vistosa de super-herói, de cores fortes, colante no corpo, capa esvoaçante, com as letras J e S estampadas num escudo bem no centro do peitoril musculoso. Igual ao S do Super-Homem. Mas não é nada disso, meu super-herói não vai usar fantasia nem terá superpoderes. JS vai entrar neste conto no dia em que nasceu. Quando? Foi num tempo não definido pelo calendário. No final da história, considerando as várias fases de sua vida, vocês façam as contas e cheguem a uma conclusão. Eu ainda não sei que tempo é esse porque estou começando a inventar a trama para a idéia que tenho na cabeça. JS era um bebê saudável que só pensava em mamar e dormir. E quando não estava na santa paz dessas duas atividades, desandava a chorar chamando por seus protetores: o colo da mãe e dois peitos suculentos cheios de leite. Ali encontrava a paz e o alimento. Seu primeiro super-herói foi uma mulher: sua mãe provedora. Depois passou a se afeiçoar a um outro super-herói, seu pai, que o embalava, fazia uma série de gracinhas com as quais ele sorria a valer e, mais tarde, respondia à enxurrada de “porquês”. Com três anos de idade entrou na escolinha, no jardim de infância. Já tinha vários amigos com quem brincava de super-heróis. Quase todos usavam as fantasias de Batman, Super-Homem, Mulher-Maravilha, Homem-Aranha, cada um tinha o seu super-herói preferido. Nas festas de aniversários, convidava os amigos para comparecerem fantasiados. Nos últimos anos, essas festas tinham como tema ora um ora outro super-herói. Numa delas a decoração foi a do clube dos super-heróis, pois já tinha passado individualmente por todos os mais conhecidos. A admiração era total. JS agora já tinha virado um garoto muito esperto. Assistia a todos os filmes desses personagens, tanto nos cinemas quanto na televisão. De presente, recebia dos pais e amigos os respectivos vídeos e DVDs, que não se cansava de ver e rever. JS continuou crescendo e além dos super-heróis via filmes e historinhas de todas as espécies. De duendes, ogros, fadas, magos, feiticeiras, sem falar nas mais infantis histórias da carochinha, como João e Maria, os Três Porquinhos, o Lobo Mau, Chapeuzinho Vermelho, além de algumas figuras mitológicas, como é o caso do Hércules, cujas façanhas passou a conhecer e de que passou a gostar. Sua mente estava povoada desses personagens mirabolantes, ao lado de Papai Noel e do Coelhinho da Páscoa. Também uma corte de coadjuvantes e figurantes, no papel de monstros e bandidos, freqüentava seus pensamentos. Na escola, passou a ter aulas de religião, quando foi apresentado a uma porção de histórias. A criação do mundo, a de Adão e Eva, a da arca de Noé, o do nascimento de Jesus, a vida de alguns santos e um mundaréu de anjos que vivem flanando por aí e na glória do paraíso. O paraíso por si só era uma bela história. Em contrapartida vinha o inferno com o seu infame chefe e sua corja de seguidores. Antes de completar dez anos foi iniciado na literatura. Foi um velhinho simpático, seu vizinho, que lhe emprestou o primeiro livro. As Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Leu-o em pouco tempo. De vez em quando ia conversar com ele e o chamava também de vovô. O velhinho gostava muito de bater papo com JS e achava muita graça que ele também gostasse disso. Era surpreendente que um garoto naquela idade que estaria melhor jogando bola, andando de bicicleta, aprontando reinações, gostasse de perder tempo com o velho. Isso não quer dizer que ele não fazia tudo aquilo. Mas ele gostava também de conversar e mais, gostava de ler e por vezes perdia um tempão ouvindo o que o velho lia para ele. JS era um garoto saudável e peralta. Vocês conhecem esta palavra: peralta? E reinações, que usei há pouco? Lembram de Reinações de Narizinho, do mesmo Monteiro Lobato? Narizinho, do Sítio do Pica-pau Amarelo! Antigamente se chamava de reinações as travessuras dos meninos espertos e cheios de energia. Começara a se afeiçoar aos livros quando entrou na adolescência. Passou das histórias infantis para os relatos épicos e maravilhosos, chegando mais tarde aos contos e romances. Lia também alguma poesia. Com isso começou a vislumbrar a arte, o simbólico, o metafórico e, neles, entender um pouquinho de sua própria vida. JS passou a notar a diferença entre seus novos livros de literatura e aqueles de historinhas e de super-heróis, entre a literatura e os livros de cunho religioso. Ele observou que a ficção na literatura é um artifício para se chegar às realidades humanas de maneira mais efetiva do que uma explicação professoral. Os livros antigos induziam-no a crer piamente nas histórias e nos seus personagens. Os novos livros criavam-lhe um mundo à parte da realidade, mas cheio de coisas reais. Uma mentirinha que era usada para tentar uma aproximação à verdade, essa quimera inalcançável. Não para se crer na existência dos personagens, mas através deles sentir a sua própria existência. A literatura por mais surreal que seja não cria o sobrenatural. Usa-o por vezes para abordar o real. Recorre ao absurdo para chegar ao plausível. Nas aparências é a mesma coisa, mas no fundo são dois mundos diferentes: o mundo da crença, quando acreditamos ingenuamente na existência dos personagens e por conseqüência nos super-heróis, no sobrenatural, e o mundo da ficção literária quando não acreditamos na existência dos personagens mas testemunhamos os sentimentos que eles nos passam, isto é, que o autor nos passa. Um grande teatrólogo alemão sugeria que suas peças fossem montadas em palco aberto, sem cortina na boca da cena. Que os cenários fossem montados e modificados aos olhos do público. Exatamente para mostrar que eles estavam representando e que a história não era real. Algumas das antigas tragédias gregas são eternas porque tratam de sentimentos humanos em forma de peças teatrais que de outra forma talvez fosse chocante apresentar cruamente. O super-herói não existe, assim como não existem os fantasmas, os espíritos, os monstros, o paraíso, o inferno, as divindades, a plêiade de deuses adorados por tanta gente. É tudo fruto do medo, da aflição, do mistério que nos cerca, da insegurança daí advinda. JS hoje é uma pessoa madura, satisfeita da vida, salva das fantasias, fetiches, misticismos, o que não elimina suas preocupações, desilusões, dores, frustrações etc. etc. Não sei se deu para notar, meus netinhos. JS pode ser qualquer um de nós. Poderá ser um de vocês. Pessoas simples, cheias de defeitos, com algumas qualidades, iguais a todo mundo. Uns mais capacitados do que outros; uns tiveram ou aproveitaram melhor as oportunidades do que outros; uns têm mais necessidades do que outros. Surpresa! Eles dormem! Somente agora me dou conta! Acredito que durmam desde que comecei esta historinha. Não sei se por desinteresse ou cansaço de suas atividades do dia, que foram intensas. Afinal, produzi um belo sonífero! A história lhes interessa mais por esse ângulo do que pelo seu conteúdo. Boa noite, meus queridos netinhos! Tenham bons sonhos. Sonhem com os anjos, mas não se esqueçam, os anjos são vocês, meus doces super-heróis.
Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES) Todos os números anteriores podem ser encontrados em:
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