Jornalego
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JORNALEGO ANO IV - Nº 101, em 30 de Abril de 2005. Conto PRAIA DAS VIRTUDES Aqui, Praia das Virtudes é um local imaginário além de ser o título de um romance fictício. É também um livro-ficção; ele próprio não existe. Fantástico, pois não? Por esse motivo apresento a seguir um resumo dele, facilitando a vida dos curiosos, dispensando-os de procurar o livro e de ler centenas de páginas inexistentes. Trata-se de uma crônica de costumes dos habitantes da praia que lhe dá nome, um pequeno bairro-balneário situado nas costas do Brasil. Praia das Virtudes “não é norte, nem centro, nem sul”, é o bairro mais elegante da cidade de Trindade, uma ilha incrustada no continente, capital do Estado de Santíssimo. Não se trata daquela ilhota rochosa perdida no Oceano Atlântico. Dela só tem o nome da tróica divina do catolicismo. Só na parte continental de Santíssimo existem lindas e extensas praias oceânicas. A leste da ilha, entre um morro e um penedo, surge a pequena Praia das Virtudes, guarnecida do mar aberto por arrecifes e calhaus que desaparecem quando cobertos pela maré alta. Se tanto, a faixa de areia tem quinhentos metros. É a única praia da ilha, quase um condomínio fechado, cercada de belíssimos prédios de apartamentos, na orla e nas ruas arborizadas que para lá convergem, onde, antigamente, havia lindas mansões. Seu nome advém do local escolhido pelos frades do convento do morro vizinho que, antes das missas, no arrebol de antigas manhãs, desciam às escondidas a erma praia para se banhar, refazendo o corpo e limpando a mente, purgando-se dos sonhos eróticos das noites solitárias de verão. Contorna a ilha um canal por onde deságua um rio que vem das montanhas. Este canal abraça a maior parte do perímetro da ilha com muitos manguezais e escuras margens. Ali desaguam valas negras e os esgotos da capital, inclusive os do novo arrabalde enfocado no romance. Por aqueles lados mora a população de baixa renda. Contudo, a Praia das Virtudes está totalmente preservada dessas impurezas. No caso dos dejetos, as correntes marítimas levam os detritos para o alto-mar. Além do que altas grades e sólidos muros protegem seus prédios e casas remanescentes. Há mais de quatrocentos anos, quando por ali aportaram os desbravadores portugueses, a região era habitada por ferozes indígenas, logo domesticados pela evangelização dos jesuítas e, a partir daí, explorados e praticamente extintos. Depois vieram os negros escravos para os trabalhos braçais na lavoura, no interior do estado, e os serviços subalternos da classe dominante trindadense. Hoje, seus descendentes habitam os morros, a periferia da ilha em favelas e em verdadeiros guetos no continente. As recentes levas de europeus fecham esses fluxos migratórios, em dois tempos, o primeiro para o interior do estado, depois de lá para a capital; todos, bem sucedidos. Toda a elite mora na Praia das Virtudes. Sua expansão deu-se quando para ali chegou um colunista social que fez enorme sucesso no principal jornal da cidade, animador de festas inesquecíveis da alta sociedade e incentivador da transferência da cúpula nativa, que habitava originalmente o centro da cidade, para aquele arraial. Ficou rico intermediando os lançamentos imobiliários no bucólico lugar. A região central entrou em decadência, embora mantendo belos edifícios históricos e os poucos moradores de bom poder aquisitivo que resistem por lá. A trama do romance começa com uma emergente e extravagante colunista social de outro jornal, que foi assassinada, vítima de crime de mando, financiado por um consórcio de pessoas, que vinham sendo denunciadas na sua coluna diária. A atividade da colunista, figura badalada e paparicada pelos habitantes dessa parte do burgo, era discutível, indo da simples denúncia de falcatruas a chantagens. O crime nunca foi explicado, ninguém pegou cadeia, não houve culpados, assassinos ou mandantes. Era tempo de ditadura. Época de arbítrio. A partir daí, o romance mescla histórias de crimes, negociatas, falcatruas, desvios de recursos públicos, com a vida social intensa dos habitantes da Praia das Virtudes. É interessante notar uma certa complacência de determinados setores desse estrato da sociedade – gente-boa, sangue-bom – que mesmo nada tendo a ver com a podridão, conviviam com os principais vilões e abstinham-se, calavam-se e não acreditavam na punição dos infratores, criando um clima propício para a difusão e continuação dessas práticas. A ação vai num crescendo, a torrente de atividades desonestas passa a ter dinâmica própria, sem nada que a conteste ou a contenha. As páginas centrais do romance mostram a corrupção chegando despudoradamente aos altos escalões do Poder Executivo do Estado, do Legislativo e à Justiça. Contaminando os corpos auxiliares, as polícias civil e militar, com o imprescindível suporte financeiro de alguns empresários e banqueiros locais. Paralelamente discorre sobre os grandes projetos industriais desenvolvidos na região que criaram oportunidades de bons empregos, mas que, em contrapartida, produziram, depois de implantados, com a dispensa de empregados imigrantes sem qualificação, o inchaço na periferia da cidade, nos morros, nos mangues, nas zonas mais inóspitas. O livro descreve a violência urbana crescendo e atingindo níveis insustentáveis. E a interface da criminalidade miserável com a de colarinho branco. É um verdadeiro estudo sociológico travestido de romance. Ele mostra que somente com a sociedade civil reorganizada as ações de correção dessas contravenções se tornaram possíveis. A reviravolta começa com a chegada de dois personagens alienígenas. A partir daí, a população se dá conta da doença que contaminava todo o organismo social da comunidade, principalmente sua parte mais afluente. É quando a história registra a entrada em cena de um procurador de outro estado e de um religioso católico estrangeiro. Vale a pena resumir o que se passa, já que ninguém mesmo vai comprar e muito menos ler a maçaroca, dada a real impossibilidade de fazê-lo. O frade italiano, fã incondicional dos movimentos da Igreja no tempo da Teologia da Libertação, começou a expor, no púlpito do convento vizinho, as mazelas daquela sociedade. Como estava causando incômodos ao bispado local, seguidor rigoroso das normais papais então prevalecentes, foi-lhe imposto o chamado Silêncio Obsequioso, vale dizer, cassaram-lhe a palavra e o religioso foi convidado a cantar em outro poleiro. O romance não cita o seu paradeiro. Deixou sementes que, germinadas, foram colhidas pelas novas autoridades de segurança do estado e pelo recém-chegado procurador, apurando vários crimes e denunciando os infratores na Justiça. Sobre esse último personagem foram plantadas inúmeras insinuações difamatórias infundadas. O livro termina com alguns personagens na cadeia, outros respondendo a processos, com os bens indisponíveis. O padre e o procurador se foram e a vida continua, com novos seguidores. A população está mais conscientizada, confiante e cooperativa. O processo depurador continua, deixando, contudo, alguns habitantes ainda céticos quanto ao seu desfecho, pelas dificuldades inerentes ao seu prosseguimento num ambiente democrático. Um articulista cocoroca muito conhecido por suas idéias retrógradas e pelo suposto envolvimento em duvidosas transações, numa de suas recentes colunas estendeu-se num longo texto, bem condizente com seu estilo literário, baixando o cacete no romance, logo que ouviu comentários a respeito. Não leu e não gostou. Dizia ele, ao final da sua indignada colocação: “Este romance não existe, sob qualquer prisma que se queira analisá-lo”. “Reflete a mente perversa, pecaminosa e pervertida de uma pessoa que não consegue se relacionar com os seus semelhantes, recalcado, incapaz, invejoso e que fica inventando coisas para justificar e aplacar suas esquizofrenias explícitas”. “Trata-se forçosamente daquele tipo frustrado que, anos atrás, se escondia sob as asas de ideologias espúrias, como o comunismo ateu que, em boa hora, foi exterminado pelas forças do bem”. Continuando: “Tais indivíduos não têm mais lugar sequer ao lado do atual Presidente da República que, alçado ao poder, atingiu uma certa maturidade e não prega mais aqueles pensamentos radicais de antanho que ainda sobrevivem em alguns de seus companheiros de partido”. “Enfim, um desajustado”. Bem, vou encerrando de mansinho este texto antes que uma lambada de gurungumba desça sobre meu dorso por andar divulgando histórias imaginárias, resenhando livro fantasma de escritor também. Genserico Encarnação Júnior Itapoã, Vila Velha (ES) Todos os números anteriores podem ser encontrados em:
Neste início do papado de Bento XVI, sugere-se a releitura do número 48 do JORNALEGO, de 30.09.2003, intitulado DISCURSOS, a ser encontrado em: http://www.ecen.com/jornalego/no_48_discurso.htm Correção: Quem escreveu Octogésimo Annus, encíclica de 1971, citada nesse texto, não deve ter sido João Paulo II, que só iniciou seu pontificado em 1978. Provavelmente Paulo VI. João Paulo II escreveu Centésimo Annus.
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