ANO X - N°
292, em 30 de janeiro de 2012.
Ficção
O LEGADO DE APOLÔNIO
Os meus leitores mais
frequentes sabem que meu amigo Apolônio morreu em 2010, quando da
última eleição presidencial. Contei isso no número 260 do Jornalego
- Meu Mulato Inzoneiro. Também escrevi sobre ele no 258 (A
Solidão de Apolônio) e no 238 (Apolônio Volta a Atacar).
Além desses textos existe outro mais antigo, quando pela primeira
vez apresentei aos meus leitores o Apolônio. Mas não sei mais onde
encontrá-lo nessa barafunda de títulos em que se tornou o acervo do
Jornalego. Se você o achar avise-me, como na brincadeira: Onde está
Wally? (*)
Decorridos algum tempo
depois de sua morte eis que recebo a visita de sua filha me trazendo
um envelope pardo reciclado, que ele utilizava para ali juntar os
seus escritos. Como se sabe, ele sempre foi irreverente na
interlocução e radical no pensamento. Descobri verdadeiras
obras-primas, sobre os mais variados e polêmicos assuntos naqueles
seus garranchos. Todos no verso de um papel usado por mim nos
rascunhos do Jornalego que são muitos, já que eu imprimo, corrijo e
imprimo novamente várias vezes o que escrevo. Além da pilha de papel
que passei para ele, ainda tenho outra no meu escritório esperando
uso, numa edificante atitude ecológica de economizar papel.
Do que encontrei por lá,
numa primeira pesquisa, descobri este poema que agora transcrevo
para vocês. Ele o chamou de Ato de Fé, com o subtítulo
de Versos sem Graça, sem Rima, nem Poesia. Antes do
soneto, transcrevo a epígrafe que ele colocou: “A crença e a
descrença no sobrenatural são as duas faces de uma mesma moeda. Nada
pode ser provado nesses campos. Eis o mistério da fé!”
A seguir o produto de
sua lavra:
Como seria bom!
Reaprender a rezar.
Pra me apascentar.
Pedir e obter sucesso na vida
E proteção do divino,
Dos santos, dos anjos,
Aos percalços que nos espreitam:
Aos fracassos, às doenças,
Enfim, à morte que se aproxima,
Que não nos venha breve
E venha leve,
Já que inevitável
Para o crente e para o descrente.
Como seria bom!
Ter fé em deuses, em santos, em
anjos,
Sentir-se blindado, amado e seguro
Das artimanhas do demo
(De quem eu também não dou fé).
Como seria bom e fácil
Adulá-los, adorá-los, venerá-los,
amá-los,
Na esperança certeira dos bons fados
Graças a tão boas fadas!
Como seria bom!
Se Deus existisse!
Não precisa tanto!
Se eu acreditasse
Nessa possibilidade.
Como seria bom!
Se eu não fosse assim!
Que pena eu ser assim!
Não tenha um deus
Pra chamar de meu.
Que amenize minha aflição.
Um santo protetor,
Um anjo da guarda,
Uma senhora minha
Pra chamar de mãe.
Como seria ruim!
Essa história de vida eterna
De reencarnação
De vida depois da morte.
Que infelicidade!
Além de não crer,
Odeio a idéia
Da penalidade de viver
No tédio do sem fim
Aqui ou no além,
Na glória ou no infortúnio.
Como seria ruim!
A morte,
Sem o amparo da sacra crença
Sem a proteção da santa corte
Se ou quando minha doença chegar.
Humildemente subiria no patíbulo
Da descrença que me restou
De família religiosa,
Do catecismo,
Do colégio religioso,
De tantas missas assistidas,
De preces repetidas,
De encontros religiosos,
De sacramentos recebidos,
Da bíblia lida e relida,
Da incessante doutrinação.
Mot de la fin.
Quando, contra vontade,
Despedir-me da vida
Entrarei no nada ou,
No máximo,
Na memória restrita
Dos mais próximos;
No máximo,
Das duas próximas gerações.
Como será meu fim?
Exatamente assim:
Como terminam
Estes rabiscos rupestres.
É isso aí. A confiar no senso
comum e no que pregam quase todas as religiões, eu tenho pena do
Apolônio que deve está penando em algum lugar no além!
Se porventura vier a
achar alguma coisa interessante de autoria do meu saudoso amigo,
continuarei com a série O Legado de Apolônio. Essas
transcrições me liberam da responsabilidade pelo texto e deixam os
leitores mais à vontade para meterem o pau nas ideias, sem
possibilidades de atingirem o saudoso escritor, exercendo assim mais
livremente o seu direito de crítica.
(*) Um leitor amigo descobriu o antigo texto,
o primeiro, sobre Apolônio. É o de número 185: Por que não Callas?