ANO X - N°
290, em 10 de janeiro de 2012.
Tipo conto
DODORA
Sou feliz, sou um homem feliz;
espero que me perdoem por este
dia
os mortos de minha felicidade.
Pablo Milanez, poeta cubano.
Maria Auxiliadora era um
nome muito comum no tempo em que eu frequentava Belo Horizonte nas
férias de fim de ano, na década de 50. Dodora era geralmente como a
apelidavam. Assim como os capixabas apelidam tantas Marias da Penha:
Penha, Penhoca ou Pepenha.
Primo, irmão e eu
gravitávamos pelas Ruas da Bahia e Guajajaras, tendo como limites o
Minas Tênis Clube, lá pra cima, e o Parque Municipal, lá pra baixo.
Peladas eram jogadas no canteiro central da transversal Avenida
Álvares Cabral. BH era ainda uma cidade pacata.
Andando de bicicleta,
descobrimos um grupo de meninas, na Rua Espírito Santo que, sem sair
dos limites do jardim de uma das casas, mexiam conosco, e a gente
adorava. Só isso, nada mais do que isso. Tínhamos pouco mais de dez
anos de idade.
Conversávamos com elas,
pouco ou nada, e uma delas se chamava Dodora.
Ao findar a década de
50, completamos nossos cursos básicos e já pensávamos em ingressar
na Universidade, depois de servir às Forças Armadas, como era e
ainda é compulsório, agora, contudo, com mais facilidade para
escapulir.
Nunca mais as vimos. Mas
o nome Dodora permaneceu na minha mente. Esse nome me volta à
memória agora que leio um livro que cita uma Dodora de Belo
Horizonte, da mesma idade que eu, talvez um pouco mais moça. Seria a
mesma Dodora que eu trouxe de volta comigo para Vitória e cujo
sonoro apelido nunca mais esqueci?
Eu fui cuidar da minha
vida, trabalhei como bancário, fiz o curso de Economia, arranjei uma
namorada que está comigo há 50 anos, dois filhos e quatro netos, fui
para o Rio cursar o mestrado, arranjei belos empregos e me firmei
profissionalmente. Todo o meu empenho objetivava isso. Acompanhava
os acontecimentos, sempre contestando a ditadura militar, mas nunca
me meti em atividades de oposição, fazendo política ou entrando em
algum movimento. No mínimo, por conformismo. Não falo mais para não
me autoflagelar.
Por outro lado, nunca
amei os Beatles e os Rolling Stones, nem a Jovem Guarda de Roberto e
Erasmo. Todo o meu esforço se concentrava na minha carreira.
Nesse período se
estendia a noite na política brasileira. Um Presidente se demitiu, o
seu sucessor assumiu com muito esforço, foi destituído por um golpe
militar, e daí pra frente reinou o baixo astral, com autoritarismo,
violência, torturas, perseguições, desaparecimentos etc. Cinco
generais se sucederam na Presidência da República.
Enquanto eu batalhava um
lugar ao Sol no mercado profissional, um punhado de jovens lutava
contra a ditadura, em militâncias políticas, guerrilhas urbanas e
rurais e outros expedientes subversivos ao regime vigente. Muita
gente morreu, muita gente foi presa, muita gente se exilou.
Pelo que li no livro
citado, Dodora estava nessa. Participou de vários movimentos
revolucionários, foi presa e torturada com alguns companheiros e
companheiras de aventura patriótica. Como se sabe, houve mortes nas
prisões do regime. Vou pular o relato trágico desses acontecimentos.
No entanto, nada se
registrou sobre a participação dela nas ações armadas (assaltos a
bancos, roubo de carros e armas, atentados, entre outros). Ela foi
indiciada e julgada por três IPMs em três artigos do Decreto-lei
510/69, sobre crimes contra a segurança nacional, a saber:
1 – Praticar atos destinados a
provocar guerra revolucionária ou subversiva. Pena – reclusão de 2 a
4 anos;
2 – Constituir, filiar-se ou manter
organização de tipo militar, de qualquer forma ou natureza, armada
ou não, com ou sem fardamento, com finalidade combativa. Pena –
reclusão de 1 a 3 anos para os cabeças, reduzido à metade para os
demais;
3 – Constituir também propaganda
subversiva, quando importe em ameaça ou atentado à segurança
nacional. Aliciar pessoas nos locais de trabalho ou de ensino. Pena
- detenção de 6 meses a 2 anos.
Foi condenada a um ano
de prisão num Inquérito Policial Militar em Minas e a um ano e um
mês num do Rio. Em São Paulo, um juiz auditor carregou a mão na
denúncia e obteve pena máxima: quatro anos. Finalmente o Superior
Tribunal Militar reavaliou os processos, fixando a pena total em
dois anos e um mês e determinou a soltura da ré. Ela tinha
completado um ano de clandestinidade, dois anos e dez meses no
cárcere, nove meses além da pena imposta pelo tribunal militar.
Nesse período foi torturada ao longo de 22 dias.
Num artigo sobre a luta armada contra a ditadura, o sociólogo
Marcelo Ridenti registrou a atuação de 434 mulheres em organizações
clandestinas, das quais pelo menos quarenta e três foram mortas, a
maioria sob tortura.
“Dodora foi banida do Brasil em janeiro de 1971 no grupo de 70
presos políticos trocados pelo embaixador da Suíça, Giovanni Enrico Bücher, num sequestro comandado por Lamarca. Passou por Chile,
Bélgica e França até chegar, em 1974, a Colônia, na Alemanha, onde
pretendia terminar o curso de Psiquiatria. Antes de fazer a última
prova, Dodora atirou-se nos trilhos do metrô e teve morte
instantânea.”
Este é um texto tipo
conto ficcional, recheado de realidades. Primeiro, porque tais
atrocidades verdadeiramente aconteceram no país, quando da ruptura
democrática pelo período de 21 anos. Segundo, porque essa Dodora que
sofreu o diabo com a ditadura não é a Dodora que eu conheci em BH.
Terceiro, porque escolhi esse expediente para contar um pouco da
vida de outra personagem: uma de suas companheiras. Todos os
acontecimentos relatados são factuais, conforme encontrei no livro
A Vida Quer é Coragem, de Ricardo Batista Amaral, embora não
se refiram a ela, mas à sua companheira Dilma. O único parágrafo que
apresenta fatos exclusivos sobre Dodora é o anterior, devidamente
copiado e que se encontra entre aspas. Existe mesmo uma contradição
quando apresento os fatos misturando personagens. Dilma foi
libertada da prisão com 25 anos e Dodora (a do livro) foi banida do
Brasil e se suicidou no exterior, qual uma Anna Karênina dos tempos
modernos.