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Economia & Energia |
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Brasil - Energia e Competitividade Por João Antonio Moreira Patusco Março de 2008 Sinopse: A análise comparativa das matrizes de consumo de energia de diferentes grupos de países, complementada por indicadores de comércio externo de mercadorias mostra que o Brasil vem perdendo competitividade internacional. O Brasil apresenta dependência física de energia de 21 milhões de tep (tonelada equivalente de petróleo) - 9,5% da demanda total de energia - e a energia agregada a produtos exportados passa de 26 milhões tep. 1 Matriz de consumo Final de Energia 1.1 Análise Nacional De acordo com informações preliminares divulgadas pelo Ministério de Minas e Energia. O consumo final de energia (CFE) em 2007 atingiu 215,1 milhões de tep, montante 6% superior ao de 2006 e, também, superior ao crescimento da Oferta Interna de Energia (OIE) de 2007, de 5,4% (a menor geração térmica e uma leve redução nas perdas de distribuição de energia elétrica, proporcionaram perdas totais de energia de 9,7% em relação à OIE, quando em 2006 estas perdas foram de 10,3%). O carvão mineral com crescimento de 9,3% no consumo - em razão do crescimento de 10% da produção de aço a oxigênio - e a biomassa com crescimento de 8% - em razão, principalmente, do uso térmico do bagaço na indústria de açúcar e álcool (496 milhões t de cana esmagada – 16% de crescimento) – compõem os energéticos que sustentaram o crescimento médio de 6% do CFE. Abaixo do crescimento médio do CFE ficaram a eletricidade (5,6%), os derivados de petróleo (4,7%) e o gás natural (4%). Matriz de Consumo Final de Energia – Por Fonte
Na composição setorial do CFE o Setor Energético apresentou a maior taxa de crescimento, de 10,4%, alavancada pelo uso térmico do bagaço na produção de álcool, que apresentou crescimento de 27%. O Setor de Transporte também apresentou significativa taxa de crescimento, em razão da performance dos combustíveis do ciclo Otto (gasolina, álcool e gás natural – 8,1% de crescimento). Matriz de Consumo Final de energia – Por Setor
1.2 ANÁLISE INTERNACIONAL Chama atenção a extraordinária transferência da “indústria básica – commodities” dos países da OECD[1] para os demais países, em especial para o Brasil. De fato, no período de 1973 a 2005, o consumo industrial de energia da OECD foi reduzido, em valores absolutos, de 955 para 860 milhões tep – 10% de redução. No Brasil os montantes passaram de 23 para 73 (e 81 em 2007 – 252% de aumento) milhões tep. Nos demais países do mundo, os montantes passaram de 530 para 1.151 milhões tep – 117% de aumento. A tabela a seguir mostra as alterações na composição setorial do CFE decorrente dos processos de desenvolvimento do Brasil e dos demais países. Matriz de Consumo Final de Energia (% e tep)
(*) Exclusive Brasil e países da OECD Nota-se que na estrutura do Brasil a indústria ganhou participação em relação aos demais setores, o mesmo não ocorrendo nos outros países. Registre-se o forte crescimento da participação do transporte nos países da OECD, alavancado pelo uso particular de veículos. Embora o clima frio possa explicar parte do consumo de energia no agregado “outros setores”, é relevante salientar a baixa participação deste agregado no Brasil, de 19% em 2007. Nos demais países os níveis de participação destes setores são acima de 31% em 2005, e superiores aos níveis de 1973 – setores em que a demanda de energia é bastante influenciada pela qualidade de vida da população. A análise da estrutura industrial, mostrada no próximo gráfico, reforça a situação de grande produtor de commodities do Brasil em relação aos demais países do mundo. No Brasil, o agregado “metalurgia, mineração, papel e celulose e açúcar” – setores de baixa remuneração salarial e baixo nível de emprego e intensivos em capital e energia - responde por 66% da energia industrial, enquanto que na OECD a participação é de 35% e nos “outros” países, de 29% (a estrutura industrial de 2005 destes “outros” países se mostra mais parecida com a estrutura do Brasil de 1973, o que pode refletir menor nível de desenvolvimento – de fato, em 2005, enquanto o PIB real per capita do Brasil foi de 3,7 mil U$(2000), o PIB médio per capita destes países foi de 1,4 mil U$(2000) - fonte: Agência Internacional de Energia (IEA)). A questão é saber se os países do agregado “outros” vão seguir ou não a mesma rota industrial do Brasil. A evolução do comércio de mercadorias do Brasil com a China, o maior mercado destes “outros” países, mostra significativa perda de competitividade do nosso país. Em 1990 a tonelada importada da China estava em 215 dólares e em 2007 já estava em 2.130 dólares (dez vezes mais cara). Já as exportações do Brasil para a China, que em 1990 estavam em 98 dólares a tonelada, em 2007 o preço médio recuou para 89 dólares.
A pequena participação dos não-metálicos na OECD reflete o alto nível de desenvolvimento dos seus países membros, praticamente todos já num estágio apenas de reposição do que existe. Na mesma direção de desenvolvimento, a grande participação da indústria química e do agregado “outras”[2], reflete o avançado nível de desenvolvimento tecnológico – o consumo de energia industrial foi reduzido em termos absolutos de 1973 para 2005, com os setores de maior tecnologia ganhando participação. O comércio externo brasileiro, embora em franca expansão, merece ser analisado do ponto de vista de valor agregado. Os indicadores dos últimos anos, do valor da tonelada exportada versus o valor da tonelada importada, mostram que o País vem perdendo competitividade perante o mundo. Enquanto em 1990 a relação do preço médio de bens exportados para bens importados era de 1 para 1,9, em 2003 foi de 1 para 2,3 e, em 2007, foi de 1 para 2,9, apesar dos aumentos recentes dos preços das commodities. Esta perda de competitividade é coerente com as alterações na estrutura do consumo final de energia, comentadas anteriormente. Outro indicador que reflete esta perda de competitividade diz respeito à energia agregada aos produtos exportados pelo País. Em 1980, a energia agregada aos produtos exportados, como aço, alumínio, ferro-ligas, açúcar, soja e celulose, representava 9% do consumo industrial de energia e, em 2006, o percentual já estava em 31% - este percentual pode passar de 35% quando se incluir nos cálculos a exportação de outros produtos, como gusa, pelotas, alumina e álcool. Considerando, ainda, a energia gasta no transporte destas mercadorias e os respectivos custos de ampliação e manutenção da infra-estrutura (rodovias, ferrovias, hidrovias e portos), fica difícil imaginar que o País possa crescer de forma sustentada seguindo a mesma rota. Seria o caso de se perguntar, considerando os custos de transporte e de portos, se a exportação de uma tonelada de soja com origem no Centro Oeste e destino no porto do Paraná dá lucro ao País ou dá lucro apenas ao produtor. Haveria exportação se os custos de manutenção dos meios de transporte e dos portos fossem de responsabilidade do produtor? 1 MATRIZ ENERGÉTICA DE TRANSPORTE2.1 ANÁLISE NACIONAL O consumo de energia no transporte total do País cresceu 7,8% em 2007, em razão do bom desempenho da economia e dos produtos de exportação e importação. No período de 1973 a 2007 destaca-se a supremacia do transporte rodoviário em relação aos demais modais, inclusive com aumento da sua participação no consumo de energia – ver próxima tabela. Os modais ferroviário e hidroviário foram os que mais perderam participação. Matriz Energética de Transporte - por Modal
A análise do transporte rodoviário – próxima tabela - mostra forte crescimento do consumo de álcool no ano de 2007, de 34,7%, em razão das crescentes vendas dos veículos flex e dos baixos preços do álcool praticados pelo mercado, principalmente nas regiões produtoras. Em consequência, a gasolina chegou a apresentar redução no consumo. O gás natural, ainda que com alguma restrição de abastecimento ao final de 2007, apresentou crescimento de 10,9% no consumo. Matriz energética do Transporte Rodoviário
Até o final da década de 70, a indústria automotora acumulou processo de redução da produção de caminhões e ônibus movidos a gasolina, fato que contribuiu, já a partir de 1980, para a reversão da supremacia do combustível ciclo Otto pelo diesel. Assim, desde este ano, o diesel vem alternando participações entre 50 e 56% no transporte rodoviário. A análise histórica destes percentuais indica que os combustíveis do ciclo Otto – de uso quase exclusivo em veículos particulares – apresentam performances acima do diesel nos períodos de bom desempenho da economia (Plano Cruzado de 1986, anos iniciais do Plano Real e nos últimos anos). 2.2 ANÁLISE INTERNACIONAL O Brasil é o país com a maior presença de fontes renováveis de energia na matriz de transporte, tendo o álcool chegado a 15% de participação em 2007 – ver próxima tabela. Nos países da OECD as renováveis participam com apenas 0,9% - basicamente o consumo de álcool dos Estados Unidos - e nos demais países a participação é inexpressiva (0,2%). A supremacia é dos derivados de petróleo nestes países, com participações acima de 92%. Matriz Energética de Transporte - Total (% e tep)
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