Economia & Energia
Ano IX -No 48: Fevereiro - Março 2005 
ISSN 1518-2932

No 48setae.gif (977 bytes) English Version    
 

BUSCA

CORREIO

DADOS ECONÔMICOS

DOWNLOAD

e&e ANTERIORES

e&e No 48

Apoio:

 Página Principal

 Editorial:

Entrada em Vigor do Protocolo de Quioto

Texto para Discussão:

Estimativa do Teor de Carbono no Gás Natural Seco Usando-se a Diferença entre os Poderes Caloríficos Superior e Inferior

Artigo:

O Balanço de Carbono na Produção, Transformação e Uso de Energia no Brasil – Metodologia e Resultados no Processo “Top-Bottom” para 1970 a 2002.

Download

e&e No 48 completo em pdf (Adobe) para download e impressão

 

 Texto para Discussão:

O Balanço de Carbono na Produção, Transformação e Uso de Energia no Brasil– Metodologia e Resultados no Processo “Top-Bottom” para 1970 a 2002.

SUMÁRIO

1. O Projeto Balanço de Carbono.

2. Metodologia.

3. O Conteúdo de Carbono nos Energéticos.

Apuração do Teor de Carbono.

Resultados para o Carbono Contido.

Avaliação das Emissões entre 1970 e 2002 ou o Uso do Processo “Top-Bottom”

 

1. O Projeto Balanço de Carbono

O Projeto Balanço de Carbono da ONG “Economia e Energia” – mantenedora desta Revista -  tem como objeto fornecer um instrumento para elaborar o balanço de carbono na produção, transformação e uso de energia no Brasil e para o cálculo do carbono contido nas emissões de gases causadoras de efeito estufa e sua divulgação na forma eletrônica e em relatório escrito.

O objetivo é detectar – através aplicação simultânea das técnicas denominadas “Top-Down” e “Bottom-Up” – as possíveis omissões em um dos dois enfoques que podem advir de incoerências entre os coeficientes usados ou imperfeições na apuração das emissões. O princípio usado é que os átomos de carbono não desaparecem no processo do uso energético dos combustíveis e, em cada fase do processo, a quantidade de carbono (massa contida) original deve ser encontrada sob a forma de emissões ou capturada por algum processo.

O trabalho atual, realizado em convênio com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), se concentrou na elaboração da metodologia e no diagnóstico dos desvios encontrados. Na conclusão deste relatório, serão apresentadas sugestões para tratar os problemas identificados e estabelecer um balanço coerente. Deste modo, as correções necessárias ficarão para uma fase posterior.

A comparação realizada com os dados do Inventário mostra que essas correções – principalmente no processo “Top-Down” – não são quantitativamente relevantes. Como conseqüência, é possível obter as emissões entre 1970 a 2002 com precisão equivalente à do Inventário Brasileiro.

O Relatório Final foi entregue ao Ministério de Ciência e Tecnologia – MCT e encontram-se à disposição dos leitores da e&e no seu endereço eletrônico http://ecen.com. Este artigo expõe de uma forma resumida.alguns resultados alcançados  Outros resultados serão apresentados em outros números desta revista.

O período abordado é de 1970 a 2002, correspondendo ao dos dados disponíveis no período de execução do projeto no Balanço Energético Nacional (BEN), editado pelo Ministério de Minas e Energia[1], e que servem de base para o presente relatório.

2. Metodologia

O Balanço de Carbono vai tratar de estabelecer uma contabilidade entre as entradas e saídas líquidas de carbono nas atividades energéticas. O Esquema é análogo ao adotado no BEN e mostrado na Figura 1.

Figura 1: Esquema do Balanço Energético Nacional. Fonte:BEN/MME

A rigor, em cada uma das etapas do esquema acima, poder-se-ia realizar um balanço de carbono. Este trabalho se concentra nos centros de transformação e consumo. O tratamento das etapas anteriores é, certamente, de interesse na apuração do balanço, mas teria que envolver dados que não constam do BEN. Seria, por exemplo, importante saber as características do petróleo importado e do produzido internamente para checar o conteúdo de carbono do produto de entrada nas refinarias,

Os valores usados naquele balanço são fornecidos, originalmente, em unidades naturais que correspondem àquelas usadas na origem das informações (massa em t e volume em m3). Em alguns casos, onde há agrupamento de fontes, as unidades estão em toneladas equivalentes de petróleo (tep) e um critério especial deve ser estabelecido para apurar as emissões.

Para os dados de saída, é necessário avaliar a massa (ou volume) dos gases emitidos, seu teor de carbono e a massa desse elemento eventualmente retida. Quando disponível, também devem ser contabilizadas as perdas, desde que elas constituam em uma avaliação real; no caso de serem um simples registro das diferenças contábeis deve-se deixar que o balanço de carbono apure as suas. A metodologia para compilar os resultados foi objeto de convênio anterior e&e-MCT (ONG Nº 01.0077.00/2003), e está descrita nos relatórios apresentados, cujo resumo foi publicado na Revista e&e[2].

Na metodologia adotada, calculam-se as emissões pela multiplicação dos valores, expressos em energia, relativos ao uso final dos energéticos e a algumas transformações, por coeficientes apurados no levantamento do inventário das emissões causadoras de efeito estufa para o Brasil[3]. Para anos anteriores aos do período da apuração do inventário de emissões  foram usados os coeficientes do primeiro ano para o qual ele foi calculado (1990). Os coeficientes para os anos posteriores ao de 1999 foram tomados iguais aos desse ano (o último do levantamento para o inventário).

Para os hidrocarbonetos, uma aproximação para o teor de carbono por energia contida pode ser obtida a partir da diferença entre os poderes caloríficos superior e inferior fornecidos pelo BEN. A metodologia e sua verificação para a gasolina foi mostrada no No 43 desta revista (http://ecen.com/eee43/eee43p/ecen_43p.htm) e a de gás natural na presente edição. A diferença entre os poderes caloríficos corresponde fundamentalmente ao calor (latente) liberado na condensação do vapor d’água formado na combustão de uma unidade de massa do combustível e ao calor (sensível) retirado da água de condensação para levá-la à temperatura ambiente, considerada a 25º (540+75 cal/gágua). A diferença entre os poderes caloríficos permite deduzir a quantidade de água formada e, por conseqüência, do hidrogênio contido por unidade de massa do combustível. A participação do carbono (no caso dos hidrocarbonetos) é o complemento dessa participação.

3. O Conteúdo de Carbono nos Energéticos.

A elaboração de um balanço de carbono exige, em primeiro lugar, a conversão dos dados do Balanço Energético em massa de carbono. A segunda etapa é apurar as emissões que contêm carbono.

Tanto na apuração do conteúdo de carbono quanto na avaliação das emissões, é conveniente e às vezes necessário dispor de dados mais detalhados que os publicados nas páginas anexas do BEN. É bastante conveniente, por exemplo, dispor dos dados de gás natural abertos em gás úmido e seco, dos dados do álcool hidratado e anidro e dos relativos aos compostos da cana de açúcar (caldo de cana, bagaço e melaço).

O Ministério das Minas e Energia disponibilizou, até 2002, dados do balanço na abertura 49 energéticos e 46 “contas”[iii]. A Economia e Energia – ONG elaborou programa (em Visual Basic e Excel), denominado ben_ee, onde esses dados podem ser obtidos em energia final ou equivalente, em tabelas completas e parciais. Os dados energéticos podem ser representados em tonelada equivalente de petróleo (tep) no conceito anteriormente adotado pelo BEN e no atual[iv], em poder calorífico inferior (PCI) e superior (PCS) e em “unidades naturais” (de massa e volume).

Como parte do presente convênio, o programa de computador foi atualizado para os dados disponíveis (1970 a 2002) que passaram a ser expressos também em conteúdo de carbono, mediante a utilização de coeficientes (massa C / energia) para cada energético. Os dados anuais (em energia) são assim convertidos em carbono contido e podem agora também ser compilados para o conjunto de anos de maneira a gerar séries temporais.

Em um outro enfoque, que incorpora resultados da aproximação (Bottom-Up), os dados do balanço consolidado de energia (24 energéticos) e os valores apurados pela equipe do MCT que elaborou o inventário nacional de emissões, que consta da “Comunicação Nacional do Brasil à Convenção-Quadro das Nações Unidas”[v], foram usados para  deduzir coeficientes de emissão por energético em cada um dos setores da economia constantes do balanço (consumo) e os centros de transformação onde existem emissões diretas.

Com o auxílio do programa acima mencionado, denominado ben_eec (balanço de energia equivalente e carbono na presente versão), também foram geradas tabelas de conteúdo em carbono por “conta” e por energético dentro da abertura normal do BEN.

A comparação dos resultados segundo as duas metodologias pode ser reveladora sobre a validade dos coeficientes massa de carbono / energia utilizados e sobre eventuais erros ou omissões na apuração do inventário. O balanço de carbono propiciará ainda a oportunidade de fazer, com maior segurança, a extrapolação de valores de emissão para anos anteriores e posteriores aos do Inventário (1990 a 1994).

Espera-se que o primeiro conjunto de resultados seja muito semelhante ao correspondente à apuração “Top-Down” recomendada pelo IPCC. A diferença deveria resultar apenas da quantidade de carbono retida (nos usos não energéticos) e no carbono não oxidado. Facilmente é possível obter os valores de emissão correspondentes a esta metodologia dos resultados gerados nesse programa.

O programa e o manual estão disponíveis em http://ecen.com

Apuração do Teor de Carbono

O programa ben_eec apresenta os valores fornecidos pelo MME para os poderes caloríficos inferior e superior. Estes valores poderiam ser utilizados para a obtenção do teor de carbono conforme exposto no Anexo 1 do Relatório Final. Embora os resultados para o ano de 2002 tenham sido promissores, algumas diferenças importantes foram constatadas. Além disto, sendo o objetivo deste trabalho o desenvolvimento de metodologia e a formulação de diagnóstico, optou-se por usar nesta etapa os mesmos valores de coeficientes já utilizados anteriormente nos trabalhos para a apuração do inventário de emissões. Por essas razões, foram tomados os coeficientes do relatório da COPPE à Coordenação Geral de mudanças do Clima do MCT[4]  que são, em sua maioria, valores recomendados pelo IPCC[5]. Deve-se assinalar que os valores de emissões encontrados nessa referência foram adotados oficialmente na Comunicação Nacional do Brasil, também já mencionado.

Na Tabela 1 apresentam-se os resultados da aplicação da metodologia baseada nos poderes caloríficos e os coeficientes utilizados nesse trabalho (em princípio os mesmos do trabalho da COPPE para o MCT acima mencionado).

Tabela 1: Teor de Carbono a partir de poderes caloríficos superior e inferior comparado valores baseados no IPCC

 

PCS

PCI

KgH2O/

kgH/

KgC/

Massa C  / Energia

 

 

KgComb

KgComb

KgComb

 

 

 

a

b

e=(a-b)4,18/
615

f=e/9

g=1-f

Calculados.

Usados

 

kcal/kg

kcal/kg

 

 

 

tC/TJ

tC/TJ

Petróleo

10800

10180

1,0081

0,112

0,8880

20,9

20,0

Gás natural Úmido (1)

11717

11130

0,9545

0,106

0,8939

19,2

15,9

Gás natural Seco (1)

11735

11157

0,9398

0,104

0,8956

19,2

15,3

Carvão Vapor

3100

2950

0,2439

0,027

0,9729

 

25,8

Carvão Metalúrgico Nacional

6800

6420

0,6179

0,069

0,9313

 

25,8

Carvão Metalúrgico Importado

7920

7400

0,8455

0,094

0,9061

29,2

25,8

Lenha Catada

3300

3100

0,3252

0,036

0,9639

 

29,9

Lenha Comercial

3300

3100

0,3252

0,036

0,9639

 

29,9

Caldo de Cana

0

623

-1,0130

-0,113

1,1126

 

20,0

Melaço

0

1850

-3,0081

-0,334

1,3342

 

20,0

Bagaço de Cana (3)

2257

2130

0,2065

0,023

0,9771

 

29,9

Lixívia

3030

2860

0,2764

0,031

0,9693

 

20,0

Óleo Diesel

10700

10100

0,9756

0,108

0,8916

21,1

20,2

Óleo Combustível Médio

10080

9590

0,7967

0,089

0,9115

22,7

21,1

Gasolina Automotiva

11170

10400

1,2520

0,139

0,8609

19,8

18,9

Gasolina de Aviação

11290

10600

1,1220

0,125

0,8753

19,7

19,5

Gás liquefeito de Petróleo

11740

11100

1,0407

0,116

0,8844

19,0

17,2

Nafta

11300

10630

1,0894

0,121

0,8790

19,8

20,0

Querosene Iluminante

10940

10400

0,8780

0,098

0,9024

20,7

19,6

Querosene de Aviação

11090

10400

1,1220

0,125

0,8753

20,1

19,5

Gás de Coqueria (4)

4500

4300

0,3252

0,036

0,9639

 

18,2

Gás Canalizado Rio de Janeiro (4)

3900

3800

0,1626

0,018

0,9819

 

18,2

Gás Canalizado São Paulo (4)

4700

4500

0,3252

0,036

0,9639

 

18,2

Coque de Carvão Mineral

7300

6900

0,6504

0,072

0,9277

32,1

30,6

Carvão Vegetal

6800

6460

0,5528

0,061

0,9386

 

29,9

Álcool Etílico Anidro

7090

6750

0,5528

0,061

0,9386

 

14,81

Álcool Etílico Hidratado

6650

6300

0,5691

0,063

0,9368

 

14,81

Gás de Refinaria

8800

8400

0,6504

0,072

0,9277

26,4

18,2

Coque de Petróleo

8500

8390

0,1789

0,020

0,9801

27,9

27,5

Outros Energéticos de Petróleo

10800

10180

1,0081

0,112

0,8880

20,8

20,0

Outras Secundárias - Alcatrão

9000

8550

0,7317

0,081

0,9187

26,2

20,0

Asfaltos

10300

9790

0,8293

0,092

0,9079

22,1

22,0

Lubrificantes

10770

10120

1,0569

0,117

0,8826

20,8

20,0

Solventes

11240

10550