Economia & Energia
Ano VIII -No 46:
Outubro-Novembro 2004 (*) 
ISSN 1518-2932

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Opinião:

Estado Pequeno & Grandes Empresas 

Artigo:

A Prospectiva Tecnológica: Previsão com um Simples Modelo Matemático (2)

Textos para Discussão:

De Volta ao Petróleo

Evolução do Investimento no Brasil

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Texto para Discussão:

Evolução do Investimento no Brasil

Aumara Feu
aumara@ecen.com

Este texto procura mostrar que a tendência crescente observada, recentemente,  na formação bruta do capital fixo (FBCF) é, em parte, decorrente da elevação do nível de preço do investimento. Adicionalmente, pretende analisar qual a implicação do aumento do nível de preços na taxa de investimento (FBCF/PIB) e, conseqüentemente, na sustentabilidade do crescimento brasileiro.

A série da formação bruta de capital fixa como proporção do PIB a preços correntes (FBCF/PIB), bem como a variação real da FBCF e do PIB, Tabela 1, demonstram que, a partir do segundo semestre de 2003, tanto o investimento quanto o produto apresentam tendência crescente.

Tabela 1: Evolução da Razão FBCF/PIB, da FBCF e do PIB

 

FBCF/PIB corrente

Variação Real da FBCF

Variação Real do PIB

 

Dessazonalizado

Dessazonalizado

Dessazonalizado

mar/03

18,11%

-5,09%

-1,05%

jun/03

17,47%

-7,39%

-1,16%

set/03

17,98%

3,12%

0,44%

dez/03

18,61%

4,49%

1,75%

mar/04

18,66%

2,25%

1,74%

jun/04

19,01%

1,51%

1,49%

Fontes: IBGE e FBCF/PIB dessazonalizado pelo X12

Além disso, alguns indicadores antecedentes do comportamento da FBCF e do PIB, como a utilização da capacidade instalada (UCI), também mostram comportamento ascendente.

Gráfico 1: Utilização da Capacidade Instalada – Geral da FGV e FBCF/PIB a preços correntes (ambas dessazonalizadas pelo X12)

Quando se observa o comportamento crescente da UCI, Gráfico 2, este indica não apenas a expectativa de maior crescimento do PIB e da FBCF, mas também a necessidade de maior investimento e a possibilidade de pressão inflacionária por parte da demanda (a UCI já ultrapassou a sua média histórica).

Gráfico 2: Utilização da Capacidade Instalada – Geral da FGV trimestral e média

A respeito da recente elevação do nível do investimento, cabe a ressalva de que parte deste comportamento é determinada pela variação dos preços relativos.  Ou seja, quando se observam as séries dos deflatores da FBCF e do PIB, nota-se maior crescimento da primeira em relação à segunda[1].

O Gráfico 3, abaixo, mostra a tendência crescente da relação entre o deflator da FBCF e do PIB[2]. Esta relação mostra mudança de patamar na década de 80, pequeno retrocesso em meados da década de 90, sendo que a partir de 1999 (ano da desvalorização cambial), esta tendência se torna crescente.

 

Gráfico 3: Deflator Implícito da FBCF/Deflator Implícito do PIB, ambas as séries consideram como ano base 1980.

Ou seja, no que tange ao período recente, desde de 1999 o preço do investimento vem crescendo mais que o preço do produto, sendo necessário maior aporte em investimento corrente para gerar o mesmo investimento físico (preços constantes).

O maior crescimento do preço de investimento, quando comparado ao do PIB desde 1999, reflete-se numa menor taxa de investimento (relação entre a FBCF e o PIB) a preços constantes (Gráfico 4).

Gráfico 4: %FBCF/PIB a preços correntes e a preços constantes de 2000.

A tabela 2 mostra, portanto, que grande parte das modificações na taxa de investimento a preços constante se deve à variação nos preços relativos. Por exemplo, entre o primeiro trimestre de 2000 e o segundo de 2003, a queda de 8,3% na taxa de investimento média é decorrente da redução de 4,0% do preço do PIB em relação à FBCF[3].

Tabela 2: Taxa de Crescimento da %FBCF/PIB a preço constante decomposta na variação do preço relativo entre FBCF/PIB e na variação da %FBCF/PIB a preços correntes.

 

Variação no Preço Relativo (PIB/FBCF)

Variação na %FBCF/PIB a Preço Corrente

Variação Total

60-70

-3,7%

23,4%

19,6%

70-80

-10,0%

17,6%

7,6%

80-90

-24,8%

-11,1%

-35,9%

90-mar/95

1,4%

-4,5%

-3,1%

mar/95-mar/00

3,2%

-6,1%

-2,8%

mar/00-jun/03

-4,0%

-4,3%

-8,3%

Fonte:  IBGE

 

 

 

Segundo o modelo básico de Solow, função Cobb-Douglas, o aumento no preço de um fator acarretaria a elevação da produtividade deste fator na mesma proporção. Contudo, em Feu (2004), observou-se que a produtividade marginal do capital no Brasil não apresentou este comportamento, tendo inclusive caído consideravelmente na década de 70 e 80.

O Gráfico 5 mostra a taxa de investimento (preços constantes de 2000[4]) anual até 1990 e trimestral desde 1991, bem como a média verificada entre o primeiro trimestre de 1991 e o segundo de 2004, 19,1%.

A série formação bruta de capital fixo como proporção do PIB a preços constantes de 2000 tem o seu menor patamar histórico[5], verificado no segundo trimestre de 2003, 16,4%, sendo que a partir de então apresenta comportamento crescente. Contudo, no segundo trimestre de 2004, a taxa de investimento a preços constantes, 17,3%, continua cerca de 2% abaixo da média verificada do primeiro trimestre de 1991 ao segundo semestre de 2004.

Gráfico 5: %FBCF/PIB a preços constantes de 2000 e média do período.

A esse respeito, em trabalhos anteriores[6], foi mostrado que mantida a média do crescimento da produtividade total dos fatores, do trabalho e a taxa média de investimento observada de 1994 a 2001, respectivamente de 1,2%, 2,0% e 19,9%, o crescimento[7] do produto esperado no Brasil seria de 2,8%, atingindo o máximo 3,5% quando se considera o crescimento potencial (esse último só se sustenta no curto prazo).

Ressaltamos que a análise anterior só considera parâmetros médios, ou seja, choques em outros fatores podem elevar o crescimento sustentado brasileiro. Como exemplo,  um choque positivo na produtividade do capital de 2% por 5 anos, elevaria o crescimento sustentado esperado para 3,1% (e o potencial para 4%), sendo que, nos cinco anos de transição, haveria um ganho extra da ordem de 2% no crescimento esperado[8].

Dessa forma, este trabalho visa reforçar o entendimento de que o Brasil está retomando uma trajetória positiva de crescimento, cujo nível e magnitude dependem do esforço de investimento a ser despendido nos próximos anos. O referido esforço se eleva consideravelmente com o aumento no nível de preços do investimento relativamente ao nível de preço do produto.

 

Anexo I – Relação entre os Deflatores e Taxa de Investimento a Preços de 2000

 

DI-FBKF/DI-PIB (1980=100)

%FBKF/PIB (2000)

 

DI-FBKF/DI-PIB (1980=100)

%FBKF/PIB (2000)

1947

82,95

26,4%

1960

93,57

24,7%

1948

91,42

20,5%

1961

82,03

23,5%

1949

84,01

22,8%

1962

98,50

23,2%

1950

68,65

27,4%

1963

112,92

22,2%

1951

71,81

31,6%

1964

100,66

21,9%

1952

69,10

31,5%

1965

104,38

20,7%

1953

86,07

25,7%

1966

97,50

24,0%

1954

91,84

25,2%

1967

102,16

23,3%

1955

88,03

22,5%

1968

107,74

25,5%

1956

90,47

23,5%

1970

92,40

30,0%

1957

89,66

24,7%

1971

94,27

31,0%

1958

102,96

24,3%

1972

92,34

32,4%

1959

101,59

26,0%

1973

87,14

34,4%

Continuação

 

DI-FBKF/DI-PIB (1980=100)

%FBKF/PIB (2000)

 

DI-FBKF/DI-PIB (1980=100)

%FBKF/PIB (2000)

1974

89,24

36,0%

set/95

144,01

19,1%

1975

91,34

37,5%

dez/95

129,77

19,3%

1976

90,42

36,4%

mar/96

136,69

19,3%

1977

91,41

34,3%

jun/96

134,68

19,7%

1978

95,55

34,3%

set/96

134,52

19,9%

1979

103,03

33,3%

dez/96

124,05

20,5%

1980

100,00

32,7%

mar/97

134,85

20,7%

1981

112,46

29,9%

jun/97

132,02

21,1%

1982

115,06

26,2%

set/97

131,49

21,3%

1983

115,76

22,2%

dez/97

118,54

21,1%

1984

115,91

22,6%

mar/98

131,48

21,3%

1985

109,52

23,3%

jun/98

128,58

21,0%

1986

106,70

26,1%

set/98

130,26

21,0%

1987

129,66

23,7%

dez/98

123,12

20,4%

1988

143,09

21,6%

mar/99

134,24

19,7%

1989

161,09

21,8%

jun/99

131,01

19,4%

1990

139,26

20,2%

set/99

139,64

19,0%

mar/91

126,08

18,5%

dez/99

130,91

19,0%

jun/91

122,33

19,1%

mar/00

155,58

18,8%

set/91

133,68

20,2%

jun/00

133,34

19,3%

dez/91

131,41

18,5%

set/00

131,14

19,3%

mar/92

137,93

18,1%

dez/00

127,78

19,7%

jun/92

142,49

17,6%

mar/01

140,97

19,9%

set/92

140,86

17,8%

jun/01

139,36

19,5%

dez/92

138,60

18,2%

set/01

137,38

19,5%

mar/93

133,69

18,0%

dez/01

135,10

18,2%

jun/93

144,28

18,2%

mar/02

141,16

18,0%

set/93

142,45

18,0%

jun/02

135,94

18,1%

dez/93

145,19

18,4%

set/02

139,62

18,2%

mar/94

171,57

19,2%

dez/02

135,73

18,2%

jun/94

156,98

18,4%

mar/03

146,59

17,4%

set/94

138,10

18,9%

jun/03

143,34

16,3%

dez/94

135,19

21,8%

set/03

147,20

16,8%

mar/95

139,29

21,6%

dez/03

144,22

17,2%

jun/95

146,10

20,7%

mar/04

151,97

17,3%

 

 

 

jun/04

146,88

17,3%


[1] De Long e Summers (1993) haviam observado que a razão entre o deflator dos investimentos e o deflator do PIB é maior nos países pobres que nos ricos, levando as economias pobres a gerar maior esforço de investimento (investimento a preços correntes), baixando os níveis de consumo, para obterem o mesmo investimento físico (investimento a preços constantes).

[2] A série foi construída de acordo com os deflatores do PIB e da FBKF do Sistema das Contas Nacionais - SCN, divulgados pelo IBGE, adicionados à variação nos preços implícita no Novo Sistema das Contas Nacionais – NSCN, quando se compara a série a preços correntes e a série a preços constantes (construída adicionando-se a variação real do NSCN à série a preços constantes de determinado ano do SCN).

[3] Este cálculo foi feito considerando a média móvel das séries (ano anterior, ano atual e ano posterior) e decompondo o crescimento da taxa de investimento a preços constantes no crescimento: da taxa de investimento a preços correntes, do preço relativo do PIB em relação a FBKF e do resíduo (termo cruzado - o qual foi distribuído igualmente entre os dois componentes anteriores) .

[4] Lembramos que, na série a preços constantes, de acordo com o ano considerado como base, altera-se o nível da taxa de investimento, mas não o seu comportamento. Portanto, a taxa de investimento apresentada no gráfico ao ano base, 2000, difere em nível daquela habitualmente utilizada em trabalhos relativos à economia brasileira com ano base, 1980. Este ano era usado como referência por ser aquele considerado como base fixa no SCN (1968), antes do NSCN (1993) ser estabelecido.

[5] Pode-se distinguir quatro períodos de mudança de comportamento da taxa de investimento: (i) de 1953 a 1967, quando a taxa de investimento apresentou média de 23,7% e coeficiente de variação de 6,2%; (ii) de 1968 a 1980, período que engloba o milagre econômico brasileiro, com taxa de investimento elevada de 32,8%, mas com grande variação em torno da média; (iii) de 1981 a 1989, a década perdida, onde a taxa média cai para 23,8%, com coeficiente de variação elevado e com tendência declinante e (iv) de 1990 a 2004, quando a taxa de investimento apresenta o menor patamar, 19,2%, e pequena variação em torno da média.

[7] Usou-se a contabilidade do crescimento segundo o modelo de Solow, com função de produção CES e com tecnologia Harrod neutra.

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Thursday, 02 December 2004
.

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