Economia & Energia
No 41: Novembro-Dezembro 2003  
ISSN 1518-2932

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e&e No 41

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Inflação

O que afeta as Exportações Brasileiras?

Emissões Energéticas – Brasil 1970 / 2002

Alguns Índices de Inflação Brasileiros

Índices de Inflação Americana

 

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O que afeta as exportações brasileiras?

Marcos Souza

masouza@ecen.com

Carlos Feu Alvim

feu@ecen.com

 

Falsos Diagnósticos

Os sinais de recuperação da economia americana já provocam uma onda de otimismo em relação aos negócios no Brasil. O argumento é que uma recuperação da economia daquele país e de outras economias subsidiárias aumentaria nossas exportações.

A situação parece análoga – embora no sentido inverso – à deflagrada quando se instala uma crise na economia americana; quando surge, de imediato, uma onda de pessimismo na economia brasileira. Nessas situações, comumente ouvimos a velha frase: “um resfriado nos EUA corresponde, quase sempre, a uma pneumonia no Brasil”. Há quem diga justamente o contrário: que as crises americanas têm, inicialmente, um reflexo negativo no Brasil e, posteriormente, um longo período de efeitos benéficos.

Ora, os EUA entraram em crise com a chegada de W. Bush, depois de quase 10 anos de contínuo crescimento e de recuperação das contas públicas na administração Clinton. Todavia, na década de prosperidade americana, o crescimento da renda per capita brasileira ficou patinando. Nos meses de crise americana, no início do governo W. Bush, estivemos alcançando recordes históricos em nossas exportações. Essa situação parece, no mínimo, surpreendente!

Na situação atual, uma recuperação nos EUA trará, provavelmente, uma elevação da taxa de juros no mercado do dólar. Como o Brasil encontra-se altamente endividado, a primeira conseqüência pode não ser tão positiva já que dificultaria, no curto prazo, o ingresso de capitais para o Brasil e teríamos que fazer um esforço maior para pagar o serviço da dívida. Na análise preliminar nesse artigo, referente aos últimos 30 anos, as alterações no crescimento dos EUA parecem irrelevantes no comportamento das exportações brasileiras.

No Brasil, somos especialistas em falsos diagnósticos econômicos. Os médicos sabem (e os pacientes que sofreram disso, mais ainda) que para o doente, pior que não ser tratado, é se sujeitar a um receituário proveniente de um diagnóstico equivocado.

Também, foi exaustivamente repetido, ao longo do processo de liberalização comercial da economia brasileira, que para podermos exportar mais, teríamos que tornar nosso produto mais barato, ou seja, teríamos que torná-lo mais competitivo. Igualmente, acreditamos que o câmbio deve ser um importante determinante das nossas exportações. Mas será que, no caso do Brasil, essa assertiva encontra algum respaldo nos dados?

A seguir, procuramos analisar o comportamento das exportações brasileiras em termos de preço, quantidade (quantum) e valor (preço vezes quantidade), sobretudo nos últimos trinta anos. A fonte principal dos dados é a base “on line” do Fundo Monetário Internacional (FMI). Adicionalmente, alguns dados foram atualizados, a partir de séries disponibilizadas pelo IPEADATA.

No que se refere ao valor das exportações, mostramos que ele acompanha o crescimento do PIB real, segundo diversos deflatores. Esses resultados são completamente diferentes da razão obtida usando valores do PIB e das exportações ao câmbio corrente. Boa parte das variações que conduzem ao falso diagnóstico sobre o comportamento de nossas exportações se deve a variações no PIB a câmbio corrente que não correspondem a alterações reais do produto.

Adicionalmente, observamos que o quantum de exportações cresceu regularmente acima do PIB nos últimos trinta anos, enquanto o preço decaia. O resultado é que o o valor, como proporção do PIB, permaneceu praticamente constante. Isso lança dúvidas sobre o diagnóstico, amplamente aceito, que é o preço de nossos produtos (atribuído ao "custo Brasil") que vem dificultando o aumento de nossas exportações.

A realidade dos últimos trinta anos

No que concerne ao valor, vimos, no número anterior da e&e, que há trinta anos o valor de nossas exportações, em moeda internacional, vem simplesmente acompanhando o valor real do PIB. Para nosso espanto, ela não parece nem mesmo guardar uma correlação significativa com a taxa de câmbio efetiva real[1].

Na Figura 1, podemos observar que durante todo o período do Real supervalorizado do final do governo Itamar e do primeiro mandato de FHC o valor de nossas exportações simplesmente acompanhou o crescimento real do PIB. Por outro lado, os valores excepcionais das exportações, em 2003, podem apenas refletir (tomara que não) uma oscilação já verificada anteriormente, quando se inicia uma recessão na economia brasileira. Surpreendido pela crise o setor produtivo exporta o excedente, mesmo que apenas para manter o PIB por habitante. Quando o país volta a crescer, os excedentes desaparecem e as exportações voltam ao nível anterior.

: Exportações e PIB reais em relação ao ano de 1995.

Valores Relativos ao PIB ou a Fita Métrica de Borracha

Na Figura 2, apresentamos a evolução do PIB real, calculado a partir de três métodos de deflacionamento: (i) expresso em dólares correntes e defacionado pelo IPC dos EUA; (ii) expresso em termos da paridade do poder de compra (PPC) e, também, deflacionado pelo IPC dos EUA; e (iii) valor real do PIB[2]. Os valores são relativos a 1969 quando consideramos que existia um câmbio próximo ao de equilíbrio[3].

Notemos, que o valor real do PIB em termos da PPC e em termos da moeda doméstica estão bastante próximos até 1989[4]. Entretanto, sofrem um deslocamento a partir de 1992 guardando, desde então, comportamento semelhante. Ainda na Figura 2, podemos observar que o valor real do PIB em termos do câmbio corrente (corrigidos da inflação americana) sofre enormes variações. É claro, que se expressarmos nossas exportações em função do valor real do PIB de acordo com (iii), então nossa “régua de medidas” passará a sofrer uma variação que pode induzir a incorreções na avaliação.[5]

A razão exportação/PIB em moeda local é um parâmetro importante para avaliar, por exemplo, a remuneração dos exportadores. Entretanto, do ponto de vista externo como, por exemplo, para pagar a dívida externa, essa razão carece de significado.

Para exemplificar, tomemos os anos de 1998 e 1999: Em valores correntes, as exportações baixaram de 58 para 49 US$ bilhões. O PIB real em termos de moeda doméstica cresceu 3,2%, mas o expresso em dólares correntes baixou de 788 para 547 bilhões de dólares. No entanto, a razão exportação/PIB, tanto em dólares quanto em reais corrente, subiu de 7,3% para 9,2%.

Figura 2: PIB real, câmbio corrente e em paridade de poder de compra

 

Valor (externo) das Exportações comparado ao PIB Real

Propositalmente, estivemos comparando exportações e PIB por meio de vários índices. Para achar valores “reais” para essas variáveis, onde a inflação esteja descontada, temos que aplicar um deflator, escolhido conforme o objetivo do estudo. O que apresentamos pode ser entendido como um indicador  do poder de compra dos dólares obtidos pelas exportações brasileiras para aquisição de bens em nível do consumidor (IPC) nos EUA ou de quantidades do Produto Interno Bruto dos EUA.

Na Figura 3, apresentamos a razão entre exportações e PIB real calculada a partir de cinco formas: (i) exportações em dólares correntes e PIB em dólares da paridade de poder de compra; (ii) índice das exportações deflacionado pelo IPC dos EUA e índice real do PIB. (iii) índice das exportações corrigido pelo deflator implícito do PIB americano e índice do PIB real. Neste caso, ambos os índices foram normalizados para 1995. (iv) Índice das exportações e índice do PIB real em termos da PPC. Nesta, espera-se que o comportamento da razão descreva o comportamento do valor real da razão exportações/PIB.[6] (v) índice das exportações corrigido pelo IPC dos EUA e o índice do PIB deflacionado pelo INPC do IBGE.

Como podemos ver na figura abaixo, os resultados os encontrados são bastante semelhantes para os cinco tipos de razão calculada.

Figura 3: Razão exportações PIB de acordo com vários deflatores. A partir de 1973 os valores pouco variaram ou são ligeiramente decrescentes.
Nota: As crises de 79/80 e 84 provocaram picos de curtíssima duração, a "moratória técnica"de 86 uma depressão também curta. Será o pico atual transitório?

 Podemos observar na Figura 3 que, a partir de 1973, as exportações passaram por um platô (levemente decrescente) que durou até 2003. Os valores, nesse platô, foram ligeiramente superiores a 7% do PIB. Valores mínimos (antecedidos de picos positivos) foram registrados em torno de 1982 (crise do México e ida ao FMI) e 1987 (moratória técnica). Devemos assinalar que houve uma mudança expressiva em 1973, quando o valor de nossas exportações passaram de 6% do PIB para valores, ligeiramente, superiores a 8%.

Esse comportamento permite inferir que a questão de fixação do câmbio e mesmo a recente crise nos EUA tiveram pouca ou nenhuma influência no valor exportado. Havíamos assinalado este fato no Nº 38 da revista e&e.

Voltamos a destacar que, nesta análise, estivemos tratando de valores externos das exportações, já que fizemos comparações entre o valor das exportações relativas ao PIB, expresso pela taxa de câmbio média do ano. Para o exportador, no entanto, faz uma enorme diferença a variação do câmbio, uma vez que, normalmente, boa parte de seus custos estão em moeda nacional.

No entanto, nosso histórico mostra que alterar o câmbio é uma medida eficiente para reduzir o valor das importações e muito pouco eficiente para aumentar o valor das exportações.

O quantum exportado

O valor das exportações em relação ao PIB pode ser analisado em termos da quantidade (quantum), preço e do seu próprio valor (preço vezes quantum). A Figura 4 mostra o que ocorreu nos últimos trinta anos, segundo os dados disponíveis no FMI.

Figura 4: preço, quantum e valor das exportações

Na figura acima, pode-se ver que enquanto o quantum exportado relativo ao PIB cresceu em 60%, os preços caíram quase à metade do verificado em 1973. O resultado da combinação destes dois efeitos foi um valor das exportações relativo ao PIB em declínio até o ano de 2002. Aparentemente, em 2003, o valor das exportações com relação ao PIB, ensaia uma volta ao nível do ano de 1973.

Sendo assim, parece que o problema brasileiro não é o de reduzir custos. As reduções verificadas ao longo dos últimos trinta anos não resultaram em qualquer aumento de valor exportado relativo ao PIB. O aumento das exportações foi praticamente cancelado pela queda dos preços reais dos produtos exportados.

Se tentássemos correlacionar a quantidade exportada relativa ao PIB com os preços obtidos por nossos produtos, chegaríamos à conclusão que estivemos presos, nestes 30 anos, em uma armadilha: quanto mais exportávamos, menor era o preço que recebíamos por nossas mercadorias.

Conforme é mostrado na Figura 5, para cada aumento de 10% no volume exportado (relativo ao PIB) tivemos uma redução de 16% no preço em dólares constantes (corrigidos pelo IPC EUA) de nossos produtos.

Figura 5: índice de preço das exportações brasileiras (corrigidos pelo IPC americano) e índice do volume exportado em função do PIB real (valores de índice relativos a 1995)

Da figura acima, podemos inferir que o comportamento qualitativo observado é coerente com o que se espera para países com capacidade para formar preços. A uma maior oferta corresponde um menor preço do produto. Com efeito, para alguns importantes produtos de nossa pauta de exportação (café, ferro e aço, soja, açúcar e suco de laranja) o Brasil tem uma participação suficientemente importante para estar desempenhando esse papel. Uma melhor compreensão do ocorrido exige uma análise do comportamento dos preços dos principais produtos ou grupo de produtos de exportação e da participação do Brasil no comércio mundial desses produtos.

Por outro lado, ao limitarmos nossa análise aos dados a partir de 1973, estamos escolhendo um período em que sabemos que houve esse comportamento e não devemos esperar que ele reflita uma relação causal e extrapolável para o futuro.

De qualquer forma, tem havido muito pouca discussão no Brasil sobre um problema mais geral, que é o das relações de troca na análise de nosso comércio exterior. A concentração dos esforços na redução do chamado “custo Brasil” pode estar mascarando problemas mais fundamentais relacionados a nosso esforço para obter recursos com as exportações. Afinal, não adianta reduzir o preço de nossos produtos, se isto significar ter que mandar uma maior parte de nosso produto.. De que vale, por exemplo, renunciar a tributos internos e obter como resultado uma taxação adicional no destino?[7]

Sumário:

O que afeta as exportações brasileiras?.

Falsos Diagnósticos.

A realidade dos últimos trinta anos.

Valores Relativos ao PIB ou a Fita Métrica de Borracha.

Valor (externo) das Exportações comparado ao PIB real

O quantum exportado.

Índice das Figuras:

Figura 1: Exportações e PIB reais em relação ao ano de 1995..

Figura 2: PIB real com vários deflatores.

Figura 3: Razão exportações PIB de acordo com vários deflatores.

Figura 4: preço, quantum e valor das exportações.

Figura 5: índice de preço das exportações brasileiras (corrigidos pelo IPC americano) e índice do volume exportado em função do PIB real (valores de índice relativos a 1995) 

 


 

[1] Os índices de taxa de câmbio efetiva refletem o poder de compra da moeda nacional em relação a diferentes cestas de moedas estrangeiras. A taxa de câmbio efetiva real é um tipo de média das taxas de câmbio bilaterais do país e dos seus principais parceiros comerciais, corrigida pelo diferencial entre a inflação interna e externa.

[2] O valor real do PIB corresponde ao nominal corrigido pelo deflator implícito do PIB

[3] O câmbio de equilíbrio considerado é o que equilibra a balança de bens e serviços.

[4] Então, até poder-se-ia dizer que são excessivamente coincidentes, para serem índices independentes.

[5] Essa peculiaridade é pouco lembrada, entretanto, em inúmeras discussões internas como, por exemplo, o valor do salário mínimo que é comparado com o de 100 dólares.

[6] No caso das exportações corrigidas pelo IPC americano estaremos comparando preços ao consumidor nos EUA com o PIB em valor real. Os valores em termos da paridade do poder de compra se referem a uma cesta de produtos equivalentes a preços do consumidor no país em questão (Brasil) em relação ao preço ao consumidor dos mesmos produtos nos EUA.

[7] A alegação de que ninguém exporta tributos pode ser válida para manufaturados. No entanto, ela não encontra justificativas para produtos da indústria extrativa ou básica.

 

O que afeta as exportações brasileiras?

Sumário:

O que afeta as exportações brasileiras?.

Falsos Diagnósticos.

A realidade dos últimos trinta anos.

Valores Relativos ao PIB ou a Fita Métrica de Borracha.

Valor (externo) das Exportações comparado ao PIB real

O quantum exportado.

Índice das Figuras:

 

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Friday, 27 February 2004
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