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Economia & Energia
No 29-Novembro-Dezembro 2001   ISSN 1518-2932

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Matriz Energética 2000/2020

Para a elaboração da Matriz Energética, foram seguidos os seguintes passos:

1.      Elaboração de programa de computador para auxiliar a projeção macroeconômica, levando em conta as restrições ao crescimento (estudo específico e programa)

2.      Elaboração de módulo setorial que leve em conta:

a.       O comportamento histórico dos setores no Brasil (estudo específico);

b.      A evolução da composição da atividade econômica de outros países (estudo específico);

c.       Aspectos importantes relacionados à evolução da sociedade brasileira e mundial nas duas próximas décadas (método de consenso por interação do grupo com o modelo) ;

d.      Transposição dos dados econômicos disponíveis para estrutura coerente com o BEN (uso de trabalho do próprio BEN) e para os países da OCDE em coerência com os balanços energéticos publicados por aquela organização (estudo específico).

3.      Método de conversão da energia final em equivalente com:

a.       Levantamento histórico para o Brasil (avaliação de coeficientes baseados nos Balanços de Energia Útil do MME);

b.      Adaptação da metodologia para avaliar outros países (estudo específico);

c.       Elaboração de programa que torna disponível os dados, em energia equivalente, por setor, ano ou energético (programas específicos para energia final e equivalente).

4.      Levantamento da evolução da razão energia equivalente no setor/produto ao longo do tempo ou em função de outras variáveis específicas para cada setor (estudo específico por setor às vezes com a construção de “módulos físicos” que levam em conta equipamentos e tecnologia do setor)

5.      Projeção da energia  equivalente baseada na atividade econômica do setor e na intensidade energética. (apresentado no estudo setorial)

6.      Distribuição da energia equivalente por energético para cada setor (idem)

7.      Reconversão dos valores em energia equivalente para final (idem).

Projeção de Energia Equivalente em Função do Produto ou Outro Parâmetro

Na Figura 10, representamos os valores de Energia Equivalente/Produto usados para extrapolar os consumos energéticos dos setores: Agropecuária; Transporte de Carga e Coletivo;   Industrial; e Comércio e Outros Serviços (exclusive Transporte).

Figura 10: Energia Equivalente / produto. Para o transporte de carga e coletivo, a correlação foi estabelecida com o PIB total.

Nos Setores Agropecuário e no de Transporte de Carga e Coletivo (majoritariamente a diesel), existe uma boa estabilidade da razão energia equivalente/produto setorial a preços constantes. No Setor Industrial, houve um sensível incremento da intensidade energética. Uma análise preliminar do uso de energia nas atividades industriais, revela uma grande influência da metalurgia nesse comportamento. Nos Serviços, exclusive transporte, foi suposto que a intensidade irá  alcançar um novo patamar. O incremento de grandes magazines e dos “shoppings” e o maior uso de condicionamento de ar deve ter contribuído para esse aumento de intensidade.

A demanda de energia para uso em veículos de uso individual (majoritariamente veículos do ciclo Otto [1] foi inferida a partir de correlação da frota por habitante com o PIB por habitante. O consumo por veículo considera a idade dos veículos existentes e o preço do combustível. Na Figura 11, mostramos a correlação  da frota/habitante com o PIB/habitante[2] para o Brasil (histórica) e para vários países em 1996.

Figura 11: Frota/habitante e PIB por habitante em paridade de poder de compra. Os dados para o Brasil são históricos

 

No Setor Residencial, a demanda também foi obtida a partir da evolução do PIB/habitante como é mostrada na Figura 12. A curva obtida para um conjunto de países (mais países do que mostrados no gráfico) serviu para orientar o crescimento do consumo no Brasil. O mesmo procedimento foi adotado para a projeção da frota.


Figura 12: Consumo residencial/habitante e PIB por habitante em paridade de poder de compra, valores relativos ao Brasil em 1996.

Participação dos Energéticos por Setor

Definidos os parâmetros da seção anterior, é possível, a partir do crescimento suposto para a economia como um todo e da distribuição das atividades por setor, projetar a energia equivalente para cada setor. Os resultados desta projeção são mostrados na Figura 13.

Para se chegar à participação dos diferentes energéticos, estuda-se o comportamento histórico dessa participação. Uma comparação com a estrutura de consumo de outros países pode ser um indicativo da tendência para o futuro. Como exemplo, vamos apresentar a projeção para o Setor Industrial. A Figura 14 mostra uma projeção agregada dos energéticos agrupados pela forma e origem. 

 

Figura 14: Participação histórica e projetada dos energéticos no Setor Industrial  no Brasil

 Pode-se observar na figura acima: a) a forte contenção na participação dos derivados de petróleo na indústria, como conseqüência da crise de preços do final da década de oitenta; b) o crescimento da participação da eletricidade, em  conseqüência  da modernização tecnológica; c) o aumento da participação do carvão mineral e seus derivados , dado o crescimento da importância do setor siderúrgico e alguma substituição entre os energéticos; d) a penetração do gás natural,  contribuindo, na última década, para algum recuo na participação da eletricidade.

A projeção da demanda levou em conta as tendências históricas. Uma comparação da estrutura de consumo no Brasil e em outros países, baseada em uma adaptação dos dados da OCDE para energia equivalente também contribuiu para a análise.

A Figura 15 mostra a participação dos energéticos agrupados para países, numa vasta gama de PIB por habitante. Os países aparecem ordenados por PIB/habitante.

 

Figura 15: Participação dos energéticos em uso no Setor Industrial nos diversos países, ordenados por PIB/hab.

Alguns fatos interessantes devem ser assinalados: a) de acordo com o que aconteceu historicamente no Brasil, a participação da biomassa se reduz com o crescimento do PIB/habitante;b) a eletricidade aumenta sua participação, na medida em  que se avança  para países mais ricos, atingindo um patamar de cerca de 50%, que é a média para o uso em países da OCDE; c) existe uma clara interpenetração (consumo de um ou outro combustível segundo a disponibilidade)  de gás natural e eletricidade e deste com os derivados de petróleo; d) o uso do gás natural é função de sua disponibilidade. Como esta, no Brasil,é bastante superior que o uso atual , significa que existe um grande espaço para expansão de seu uso na indústria; e, e) o uso de carvão mineral e seus derivados é função do tipo de indústria predominante e de sua disponibilidade. Alguns balanços energéticos contabilizam o calor de processo resultante da cogeração. Esta forma de energia é muito importante na Rússia e também, embora em menor grau, na Polônia.

A participação dos derivados é projetada usando-se um processo semelhante no interior de cada grupo de energético. Muitas vezes, sobretudo em setores menos complexos ou quando se examina separadamente cada  atividade industrial, é mais conveniente trabalhar diretamente com os diversos energéticos e não com as agregações mostradas na Figura 14.

O resultado da projeção para o uso final, em energia equivalente, é mostrado na Figura 16 (participação em valores agrupados) e na Figura 17 (valores absolutos por energético). Cabe mencionar, que, ao expressarmos a energia em forma de energia equivalente,  estamos facilitando o estudo de outras hipóteses de participação.

Figura 16: Participação dos energéticos de forma agrupada

 

Figura 17: Projeção do uso final por energético, expressa em energia equivalente.

 

Projeção em Energia Final e Exame Preliminar de Consistência de Dados

Os mesmos coeficientes usados, para cada setor, para converter a energia final em equivalente, uma vez definidas as participações, podem ser usados para gerar a projeção em energia final. Para os energéticos agrupados apresentamos seu crescimento, em termos de consumo final e expressos em energia final. Pode-se observar, na Figura 18 e na Tabela 2 que, para um crescimento econômico acumulado entre 1999 e 2020 de 88%, a energia final dobraria. O mesmo aconteceria com o uso de petróleo e derivados. O uso de biomassa permaneceria praticamente estável, com crescimento em todo período de apenas 7%. O uso de eletricidade ainda cresceria mais que o PIB (elasticidade 1,3). Um grande aumento (472%) do uso do gás natural é projetado. Como se está prevendo um aumento também de seu uso na geração de eletricidade, é necessário verificar a disponibilidade real de gás. Preliminarmente, ressaltamos que os  números por nós levantados para 2010 ( 28 milhões de tEP/ano, incluindo a geração térmica) são praticamente o equivalente à meta, anunciada pela Petrobrás, de 80 milhões de m3/dia para aquele ano.

 

Tabela 2: Consumo Final em Energia Final 1000 tEP/ano histórico e projetado

 

1970

1980

1990

1999

2010

2020

1999/200

Deriv.de Petróleo e GN

21333

47341

48163

72232

100055

145232

101%

Biomassa

32754

33769

38111

40435

39372

43221

7%

Carv. Mineral e Derivados

1633

4619

7666

9450

15013

17058

81%

Gás Natural

66

472

2143

4796

14294

27457

472%

Eletricidade

11548

35278

62708

91262

138037

203376

123%

Total

67333

121481

158790

218175

306771

436343

100%

PIB (US$94 bi)

173.3

396.5

491.7

606.1

822.1

1138.2

88%

Taxas Anuais Médias de Crescimento

 

1970/80

1980/90

1990/99

1999/2010

2010/20

1999/2020

Deriv de Petróleo e GN

8.3%

0.2%

4.6%

3.0%

3.8%

3.4%

Biomassa

0.3%

1.2%

0.7%

-0.2%

0.9%

0.3%

Carv. Mineral e Derivados

11.0%

5.2%

2.4%

4.3%

1.3%

2.9%

Gás Natural

21.7%

16.3%

9.4%

10.4%

6.7%

8.7%

Eletricidade

11.8%

5.9%

4.3%

3.8%

4.0%

3.9%

Total

6.1%

2.7%

3.6%

3.1%

3.6%

3.4%

PIB (US$94 bi)

8.6%

2.2%

2.4%

2.8%

3.3%

3.0%

 

Figura 18: Uso de energia final

 Na tabela 3, apresentamos, para os energéticos agrupados, a participação no uso final e o crescimento de participação dos energéticos.

Tabela 3: Participação dos Energéticos em Energia Final

 

1970

1980

1990

1999

2010

2020

1970/99

1999/2020

Deriv. Petróleo e GN

31.7%

39.0%

30.3%

33.1%

32.6%

33.3%

1.4%

0.2%

Biomassa

48.6%

27.8%

24.0%

18.5%

12.8%

9.9%

-30.1%

-8.6%

Carvão Min. e Derivados

2.4%

3.8%

4.8%

4.3%

4.9%

3.9%

1.9%

-0.4%

Gás Natural

0.1%

0.4%

1.3%

2.2%

4.7%

6.3%

2.1%

4.1%

Eletricidade

17.2%

29.0%

39.5%

41.8%

45.0%

46.6%

24.7%

4.8%

 

Da consolidação da análise setorial realizada resultou o quadro de projeção de energia final que é mostrado na Tabela 4 para anos selecionados por energético. Os resultados completos estão em planilha Excel anexa.

Tabela 4: Energia Final                           10^3 tEP

 

2000

2005

2010

2015

2020

GÁS NATURAL

5446

9362

14294

19728

27457

CARVÃO   VAPOR

353

1603

2262

2338

2256

CARVÃO MET.

2132

1704

2001

2603

3225

LENHA

13225

12447

11426

10321

9481

PROD. CANA

16479

16530

17975

19383

20834

OUTRAS PRIMAR

2663

2794

2994

3242

3437

 TOTAL PRIMAR

40298

44439

50952

57614

66690

 ÓLEO DIESEL  

28996

32792

37569

43778

53373

ÓLEO COMBUST.  

10348

12233

14659

17588

22179

GASOLINA

16298

19725

23626

28212

35819

GLP

7691

8442

10598

13096

15632

  NAFTA  

4

6

8

18

38

QUEROSENE

2981

3428

4086

4968

6281

GÁS

1269

1813

2221

2396

2531

COQUE   C. MIN.

5984

7512

8529

8932

9047

 ELETRICIDADE

93401

110391

138037

166679

203376

  CARV. VEGETAL

3954

4115

4277

4570

5108

 ÁLCOOL  ETIL.

5753

5162

5694

6368

7797

 O.SEC. PETR.

6351

5530

6312

7239

8262

ALCATRÃO

80

167

202

211

210

TOTAL SECUNDÁRIA

183112

211318

255819

304056

369653

Total Biomassa

35810

35742

37357

38410

40368

TOTAL

223410

255757

306771

361670

436343

 Os valores históricos e projetados estão mostrados na Figura 19

 

Figura 19: Uso de energia final histórico e projetado

   

Figura 20: Participação por fonte em energia final para o Brasil, valores históricos e projetados.

Também é importante analisar se a introdução do gás natural não altera negativamente a estrutura de refino. É verdade que, em um mercado mais aberto, pode haver troca de derivados entre países. No caso da entrada do gás natural, sempre  houve a preocupação do estrangulamento do mercado de óleo combustível.

Esta preocupação era exacerbada pelo desequilíbrio no refino (planejado para maximizar a gasolina) existiu no setor petrolífero. Isto ocorreu  para a gasolina quando, após a segunda crise do petróleo, o  mercado desse combustível passou a sofrer o duplo ataque da “dieselização” da frota e da introdução do álcool hidratado, além do álcool anidro na mistura. A Figura 20 mostra que não deverá haver problemas de estrutura de refino já que o espaço do óleo combustível é preservado e o da gasolina ampliado. Na verdade, as indicações são de que existiria espaço para também para o gás natural veicular ou para mais álcool.

 

 
Figura 21: Estrutura de consumo (em tEP de energia final) histórica. Os valores históricos parecem mostrar que não são esperadas dificuldades no refino com a estrutura de consumo proposta. Deverá ser mantido o défict, já existente, do GLP.

 

Outro teste de consistência interessante é o de como fica distribuída a energia entre os setores uma vez que esse é um critério alternativo de projeção que já utilizamos em outras abordagens. Na figura 21, podemos observar as participações em energia final

 
Figura 22: Participação dos setores em energia final.

A queda na participação do setor residencial, observada na Figura 22 pode ser atribuída ao deslocamento da lenha, de baixa eficiência, por outros energéticos mais eficientes. O aumento da participação do setor comercial e outros advém do crescimento da intensidade energética já assinalada.

Matriz de Emissões Energéticas


[1] A gasolina (mistura de carburante contendo álcool anidro), álcool hidratado ou gás natural comprimido.

[2] Convertido para dólar americano de 1995 pelo  paridade  de poder de compra (PPC ou PPP – “purchasing-power parity” em inglês)

 

Continua

Graphic Edition/Edição Gráfica:
MAK
Editoração Eletrônic
a

Revised/Revisado:
Thursday, 19 February 2004
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