Omar Campos Ferreira
omar@ecen.com
Em tempos de crise, aumenta o desejo de se prever o desenvolvimento da atividade
econômica. O problema é especialmente importante para países que têm potencial para
desenvolver atividades diversificadas, como é o caso do Brasil que, dispondo de extensão
continental, recursos ociosos de mão de obra não qualificada, ou escassamente
qualificada, sofre de carência crônica de capital. Portanto, é o caso de se discutir os
possíveis modelos de desenvolvimento.
O sucesso das economias industrializadas desperta tendências de
mimetização que talvez não se justifiquem à vista da mudança contínua do ambiente em
que se dá a produção. Na década de 50, o Presidente Juscelino Kubistcheck , entendendo
que o país deveria se industrializar para proporcionar melhores condições de vida para
o povo, lançou um programa de metas apoiando-o em ambicioso programa de geração de
energia elétrica. Os anos JK ainda despertam saudades em amplos setores da sociedade e
vários Presidentes tentaram reavivar a mística do desenvolvimento pela via industrial. O
modelo industrial fez crescer o PIB à taxa média de 5,4% ao ano, entre 1960 e 1990, mas
produziu alguns resultados indesejados, como a concentração aguda de renda, a
urbanização além dos limites permitidos pela infraestrutura de nossas cidades e a perda
de qualidade de vários serviços públicos, como os de educação e de saúde. Retomar o
modelo exigiria a reavaliação do ambiente econômico mundial.
Se aceitarmos a premissa de Marx, de que os modos de produção
determinam a organização da sociedade, caberia investigar se os nossos problemas sociais
não estariam relacionados, de alguma forma, com o modelo de desenvolvimento industrial, e
exacerbados pelo desejo de "inserção competitiva na economia global". Para
tanto, faltam-nos capital e educação técnica (reconhecida como um modo de
capitalização), enquanto sobram terras cultiváveis e pessoas desejosas de encontrarem
uma forma de sobreviver dignamente, à custa do próprio trabalho. Discutir a viabilidade
do modelo industrial é, portanto, uma questão central para a condução de nossa
sociedade.
É da tradição dos modelos econômicos usar indicadores do volume da
produção. A demanda de energia elétrica é um indicador interessante por representar,
ao mesmo tempo, uma medida da quantidade e da qualidade da demanda, de vez que os
processos de produção modernos, exigindo controles estritos, são cada vez mais
dependentes da eletricidade. Assim, propomos o exame das perspectivas da indústria
brasileira, usando como indicadores a demanda de energia elétrica, indicadores de volume
de produção e de participação do produto industrial no PIB. Com os dados do Balanço
Energético Brasileiro (versão 1997) e a metodologia de projeção logística, já
apresentada em edições anteriores da E&E , procura-se delimitar o horizonte de
desenvolvimento econômico pela via industrial.
BASE DE DADOS.
Os dados foram extraÍdos do BEN/97 e registram a evolução da demanda
de energia elétrica pelo setor industrial. Como a geração elétrica no Brasil é de
base hídrica, o que restringe o comércio de energia com outros países, podemos
considerar o sistema de geração e de uso da eletricidade como sendo isolado, nos termos
das restrições estabelecidas na dedução probabilística da lei logística ( E&E,
número 1). Repetindo o algorítmo já aplicado em outros estudos, calculam-se as demandas
médias em intervalos de tempo uniformes, suficientemente longos para alisar os dados e
suficientemente curtos para se dispor de amostra estatisticameente representativa. A
contabilidade energética sistemática no Brasil é relativamente recente (o Balanço
Energético Nacional começou a ser editado em 1970), de forma que, para satisfazer os
requisitos da metodologia, foram usadas as taxas trienais de variação da demanda. Com
séries históricas mais longas é possível elaborar projeções mais "lisas"
como no caso da reserva de petróleo apresentada em número anterior da E&E. O ajuste
das taxas calculadas à equação diferencial da lei logística
dN/dt = a N ( N* - N )
em que N é a demanda do ano mediano do intervalo considerado , dN/dt
é a taxa média de variação da demanda no intervalo e N* é o valor máximo da demanda,
permite determinar a demanda máxima dentro do modelo de desenvolvimento em exame. Se a
taxa média de variação se ajusta à lei parabólica, pode-se calcular a demanda final
como o dobro da demanda na qual ocorre o máximo da taxa de crescimento da mesma ( vd.
E&E, n0 1 ).
Os dados elaborados a partir do BEN estão registrados na tabela
seguinte:
| ANO MEDIANO |
1973 |
1976 |
1979 |
1982 |
1985 |
1988 |
1991 |
1992 |
| DEMANDA Twh |
29,5 |
43,5 |
62,0 |
71,5 |
96,5 |
110 |
115 |
125 |
| TAXA TRIENAL Gwh/a |
3,88 |
5,86 |
4,52 |
6,50 |
5,93 |
2,47 |
3,40 |
2,25 |

O ajuste parabólico dos dados da tabela está mostrado no gráfico
acima.
Apesar do pequeno número de dados, vê-se que o ajuste é razoável
(r= 0,838), permitindo usar o indicador de demanda de eletricidade para um exame
exploratório da perspectiva de desenvolvimento.
A taxa de variação da demanda é máxima para a demanda de cerca de
69 TWh/a, de forma que N*= 138 TWh/a. Determinado este parâmetro, pode-se prever a
evolução da demanda através do ajuste dos dados observados à função integral que é
a função N = N* / (1 + k e - a N* t ), sendo k uma constante de integração
a ser determinada para se completar a projeção . Usando os pares de valores de N e t,
calculam-se os valores de k correspondentes aos pontos observados e finalmente toma-se o
valor médio de k para concluir a projeção (resultados abaixo)
ANO |
1973 |
1976 |
1979 |
1982 |
1985 |
1988 |
1991 |
1994... |
2000 |
2010 |
2020 |
N observ. |
29,5 |
42,5 |
62,0 |
71,0 |
96,0 |
110 |
115 |
125 |
- |
- |
- |
N ajuste |
29,0 |
42,3 |
58,3 |
75,5 |
92,0 |
106 |
117 |
124 |
133 |
136 |
137 |
Conforme se depreende do gráfico abaixo, a demanda tenderá
assintoticamente para 138 TWh/a. No intervalo 1994-2020, a taxa média de crescimento da
demanda será da ordem de 0,4% ao ano. A produção industrial, se mantida a
proporcionalidade com o consumo de energia constatada por diversos autores, crescerá no
mesmo ritmo.
PARTICIPAÇÃO DO PRODUTO INDUSTRIAL NO PIB.
O produto industrial tem participação decrescente no PIB, como mostra
o gráfico seguinte elaborado com dados retirados da excelente seção " Energia e
Sócio-Economia" do Balanço Energético de 1998.

O novo indicador também aponta para a saturação do modelo de
crescimento econômico com base na indústria, o que explica a dificuldade que Governo e
Empresas vêm encontrando na tentativa de retomar o crescimento do produto. A
coincidência de resultados dos dois indicadores sugere, como medida de cautela, o exame
do indicador de volume de produção. Escolhemos para esta finalidade dois sub-setores da
indústria de transformação que têm peso considerável no produto industrial: a
indústria siderúrgica e a indústria automobilística, ambas notoriamente em crise como
se vê no noticiário de jornais e da televisão. Além disto, a concessão de favores do
Governo à Ford, para se instalar na Bahia, vem provocando polêmica candente entre
favorecidos e prejudicados, sendo portanto este sub-setor um importante termômetro das
tendências de curto prazo.
PRODUÇÃO SIDERÚRGICA.
O interesse pela produção siderúrgica é devido, em parte, pela
delicada situação ambiental da Bacia do Rio Piracicaba, objeto de um estudo do CETEC,
com o patrocínio da FAPEMIG, com o objetivo principal de definir a tipologia dos rejeitos
da produção conforme o modelo econômico preponderante. Nesta bacia situa-se o chamado
Vale do Aço onde são produzidas cerca de 6 milhões de toneladas de ferro-gusa e aço.
Á percepção de que a produção siderúrgica mundial está se aproximando da
saturação coloca dois problemas importantes para a região: quais seriam as soluções
econômicas para a população do Vale, onde a densidade demográfica é cerca de 5 vezes
a densidade média no Estado de Minas, e qual será o impacto ambiental de uma possível
mudança radical na estrutura de produção? Para examinar esta questão, foi feito um
levantamento expedito da evolução da produção siderúrgica nos últimos 15 anos, com
dados do BEN/98. Os resultados estão mostrados no gráfico a seguir.
O gráfico mostra o rápido crescimento da produção de aço na
década de 80, possivelmente influenciada pela política de exportação adotada pelo
Governo brasileiro para compensar a queda de preços dos nossos produtos de exportação
no mercado mundial (cf. Carlos Feu Alvim et al. Em "Brasil:o Crescimento
Possível"- Ed. Bertrand Brasil/1996). Entre 89 e 90, registrou-se queda brusca da
produção seguida de um novo pulso de crescimento, ficando a produção, todavia,
inferior à produção esperada segundo a linha de tendência do período anterior.
Aparentemente, a queda registrada em 90 adiou por cerca de 5 a 6 anos a saturação na
produção antecipada pela sequência anterior (82-89).

Como o Brasil é um dos maiores exportadores de aço do mundo, caberia
indagar se a atual estagnação da produção brasileira seria reflexo da crise econômica
interna ou se, pelo contrário, refletiria uma tendência internacional. A resposta é
encontrada nas estatísticas internacionais. O gráfico a seguir foi elaborado a partir de
dados do Iron and Steel Statistcs Bureau/ 1997 e mostra que a tendência à saturação é
mundial, sendo inócuos os esforços internos para aumentar a produção no Brasil. A
retomada do crescimento da produção siderúrgica depende da ocorrência de fatos novos,
de caráter essencial, que poderiam favorecer o produto brasileiro no quadro da
estagnação mundial. Uma nova queda de preços seria desastrosa para a indústria
nacional e mais ainda para a sociedade brasileira, a braços com o problema de desemprego.
A propósito, o número de empregos na siderurgia brasileira caiu cerca de 20% entre 1992
e 1997, como consequência da busca da competitividade no mercado internacional que força
a automação e a informatização da indústria .
No que interessa a siderurgia brasileira, o fato novo poderia provir do
esforço internacional de abatimento da emissão de gases de efeito estufa que favoreceria
a retomada do uso do carvão vegetal. É sabido que os combustíveis da biomassa não
contribuem essencialmente para esse efeito (a não ser pelo uso de fertilizantes e de
pesticidas eventualmente produzidos a partir do petróleo), visto que o carbono emitido é
reciclado através da foto-síntese. Assim, se o Brasil vier a ser beneficiado pela
política de concessão de bônus para a produção de combustíveis da biomassa, a
indústria siderúrgica estará em condições de representar papel mais importante do que
a indústria de álcool combustível.
INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA.
A produção de veículos automotivos para a exportação é um meio de
adicionar valor aos produtos da siderurgia. Vale, pois, investigar a possibilidade de
expansão da indústria automobilística em âmbito mundial. Este tema foi tratado por
Cesare Marchetti, empregando a metodologia de projeção logística, que concluiu haver a
indústria automobilística atingido a taxa máxima de crescimento da produção na
década de 70. Reproduzimos, a seguir, estudo elaborado por nós a partir de dados da
Motor Vehicle Manufacturers Association of the United States, Inc (edição de 1990)
apresentados em Seminário sobre Transportes e Meio Ambiente, promovido pela Scania em
São Paulo (Set/1991).
A produção mundial de veículos pode ser estudada como sistema
isolado, nos termos da metodologia logística, em face da preponderância do automóvel
como veículo de transporte na sociedade moderna. A base de dados usada neste trabalho
abrange o intervalo de 1960 a 1990, favorável à projeção pela metodologia logística.

Os gráficos mostram que a inflexão da curva de produção ocorreu
para a frota equivalente a 69 carros/1.000 habitantes e que, em conseqüência, a frota
máxima será de cerca de 140 carros por 1.000 habitantes ou 1 carro para cada 7 pessoas.
Vemos, pois, que a indústria automobilística, pela qual alguns Governos estaduais vêm
mantendo verdadeira guerra fiscal, estará produzindo, em futuro próximo, apenas para a
reposição da frota e enquanto durar o petróleo. A frota brasileira já atinge a cerca
de 14 milhões de automóveis e veículos comerciais leves, prevendo-se a sua saturação
em cerca de 17 milhões ( cf. Carlos Feu Alvim et al., Economia & Energia, número 7),
ou seja, em 1 veículo por 10 habitantes.
CONCLUSÃO.
Os indicadores usados mostram que a idade da indústria está
completando o seu pulso de crescimento iniciado com o fim da Segunda Guerra Mundial, ou
como preferem alguns, um ciclo de Kondratiev está se encerrando (2.000-1.945=55anos).
Apostar todas as fichas na indústria, como vem fazendo o Governo brasileiro é
aparentemente um erro secular. O ambiente que favoreceu o desenvolvimento industrial
mudou, o petróleo começa a escassear e o rendimento do capital está em regressão. Nos
países mais avançados o setor de serviços vem ocupando o lugar da indústria como
carro-chefe do desenvolvimento.